Paciente com câncer de mama enfrenta dificuldades no acesso ao diagnóstico e tratamento no SUS
Jovem modelo de 29 anos precisou recorrer à saúde privada após esperar meses por exames na rede pública
Gislene Charaba, de 29 anos, descobriu um tumor em estágio avançado após insistir por atendimento. Seu caso revela os desafios na agilidade do sistema público de saúde e os direitos das pacientes
Gislene Charaba, uma jovem de 29 anos que vivia seu auge na carreira como modelo em São Paulo, enfrentou uma batalha silenciosa contra o câncer de mama que ilustrará os obstáculos enfrentados por muitas mulheres no país. Segundo informações obtidas junto a fontes próximas ao caso, ela notou um pequeno nódulo no seio esquerdo ainda em 2016, período em que acreditava estar livre de riscos por não ter histórico familiar ou comportamentos considerados de risco. Contudo, o aumento do tamanho do nódulo e a intensificação das dores a levaram a procurar atendimento médico na rede pública de saúde, sendo sua rotina marcada por dificuldades desde o início.
Segundo relato de Gislene, ela inicialmente conseguiu uma consulta em uma Unidade Básica de Saúde, mas foi informada que teria que aguardar três meses para realizar os exames necessários, como ultrassonografia, mamografia e biópsia. Insatisfeita, a jovem tentou antecipar o procedimento, chegando até a buscar atendimento por meio da ouvidoria da Secretaria Municipal de Saúde. Ainda assim, não obteve resultados satisfatórios, e acabou pagando do próprio bolso por exames em laboratório particular. Foi após essa operação que ela recebeu o diagnóstico oficial: um tumor já em estágio avançado, com metástase em parte do osso, uma situação de gravidade que exigia tratamento urgente.
De acordo com fontes do caso, entre o diagnóstico e o início da quimioterapia passaram quatro meses, período no qual Gislene precisou lutar por seus direitos e superar obstáculos burocráticos. Ela passou por cirurgias para a retirada do tumor e também para reparação da mama, enfrentando despesas consideráveis e uma rotina de cobranças constantes às instituições de saúde pública para que os prazos previstos em lei fossem cumpridos. As leis brasileiras estabelecem que exames para confirmação ou descarte do câncer devem ser realizados em até 30 dias após solicitação, enquanto o início do tratamento deve ocorrer em até 60 dias após a confirmação do diagnóstico. Contudo, especialistas indicam que o desconhecimento por parte de pacientes e profissionais da saúde sobre esses direitos dificulta o cumprimento desses prazos, contribuindo para o agravamento de casos como o de Gislene.
Outro aspecto importante ressaltado por profissionais da área, como o mastologista e diretor da Sociedade Brasileira de Mastologia, é que muitas pacientes ainda desconhecem a possibilidade de realizar reconstruções mamárias pelo SUS após a retirada total ou parcial da mama. Segundo informações de uma advogada especializada, as leis brasileiras garantem que a cirurgia reparadora seja oferecida pelo sistema público, incluindo diferentes técnicas que visam à reconstituição estética e funcional da mama, a troca de próteses ou a reconstrução do mamilo e aréola. Apesar disso, a exigência de que esses procedimentos possam ser feitos na mesma cirurgia da retirada da mama, ou em etapas distintas, dependendo da condição médica, ainda enfrenta resistência e desconhecimento por parte de muitas mulheres e profissionais de saúde.
O caso de Gislene, ainda não confirmado oficialmente por órgão ou instituição, revela a importância de uma conscientização maior sobre os direitos das pacientes com câncer de mama no Brasil, bem como a necessidade de melhorias na gestão do sistema de saúde público. Como ela mesma afirmou, “tive que brigar muito para fazer valer meus direitos”, refletindo uma realidade difícil que, segundo especialistas, ainda é comum diante da lentidão e da complexidade do atendimento público. A espera e a falta de informação podem transformar um diagnóstico em uma sentença de maior gravidade, especialmente tratando-se de uma doença cuja detecção precoce é crucial para o sucesso do tratamento.
O que sabemos?
- Paciente de 29 anos descobriu tumor em 2016
- Paciente precisou pagar exames particulares por demora na rede pública
- Recuperou o diagnóstico após cerca de quatro meses e iniciou tratamento
- Sistema de saúde pública tem prazos legais de até 30 dias para exames e 60 dias para início do tratamento
- Direito à reconstrução mamária é garantido por lei, incluindo técnicas avançadas
Fontes
- Folha de S.Paulo imprensa





