Ciência

Desaparecimento de aves na floresta preservada provoca preocupações científicas

Em apuração ?

Estudo aponta queda significativa na população de pássaros em áreas intactas da Amazônia e de outras regiões

Pássaros em floresta tropical amazônica, com destaque para o uirapuru cantando.
Imagem: Superinteressante

Pesquisadores identificam redução alarmante na quantidade de aves em áreas preservadas, levantando dúvidas sobre causas não relacionadas ao desmatamento.

No coração da floresta amazônica, um fenômeno que desafia explicações convencionais tem chamado a atenção de cientistas: várias espécies de pássaros estão desaparecendo até mesmo em áreas que permanecem intactas, com vegetação nunca desmatada ou com alterações humanas mínimas. Segundo estudo divulgado em 2020 pelo Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF), que realiza monitoramento na região ao norte de Manaus, essa perda de aves foi constatada com rigor científico ao comparar dados de duas décadas distintas.

De acordo com os pesquisadores, a análise, que utilizou redes de neblina para capturar e identificar os pássaros, revelou que das 79 espécies registradas entre 2008 e 2016, 52 apresentaram declínio populacional, enquanto 24 aumentaram e apenas três permaneceram estáveis. Entre as espécies mais afetadas está o uirapuru, famoso pelo canto melódico e sua relação com a cultura indígena, que deixou de ser registrada em metade dos sítios estudados. A choquinha-de-barriga-ruiva, por exemplo, que antes aparecia em 59% dos locais em um estudo conduzido entre 1980 e 1984, caiu para apenas 14% na pesquisa mais recente. Segundo uma das fontes do estudo, essa diminuição acentuada em áreas protegidas levanta a hipótese de que fatores ainda não totalmente compreendidos estão atingindo esses ambientes.

Para além da Amazônia brasileira, outros estudos na região andina reforçam esse cenário preocupante. Uma investigação na Estação de Biodiversidade de Tiputini, dentro da Reserva de Yasuní, no Equador, apontou uma queda de 40% na captura de aves entre 2001 e 2014, usando técnicas semelhantes às redes de neblina. Esses dados indicam que o fenômeno pode estar ocorrendo em larga escala, afetando a avifauna de diversos ecossistemas preservados na América do Sul.

Especialistas ainda não confirmaram oficialmente as causas desse desaparecimento, mas há suspeitas de que fatores além do desmatamento, como mudanças climáticas e ações humanas indiretas, possam estar contribuindo para essa crise silenciosa. O estudo, que aguarda validação por outras instituições, ainda não esclarece completamente os mecanismos que levam ao declínio de espécies que antes prosperavam em ambientes pródigos em biodiversidade.

A situação trouxe à tona uma questão importante: mesmo as áreas consideradas livres de intervenção humana parecem estar sofrendo um impacto que precisa ser investigado com maior profundidade. O silêncio repentino das aves, especialmente aquelas com papel cultural e ecológico relevante, como o uirapuru, preocupa ambientalistas e pesquisadores, que veem nisso um alerta de que a saúde das florestas pode estar mais fragilizada do que se imaginava, mesmo sem sinais visíveis de desmatamento ou queimadas.

Publicidade

O que sabemos?

  • Estudo de 2020 constatou queda na população de aves em áreas preservadas da Amazônia.
  • Das 79 espécies analisadas, 52 apresentaram declínio, incluindo o uirapuru.
  • Pesquisa na região de Yasuní no Equador mostrou queda de 40% na captura de aves entre 2001 e 2014.
  • Área de estudo fica a 80 km ao norte de Manaus, utilizando redes de neblina para monitorar as espécies.

Fontes

Publicidade