Universidade brasileira enfrenta desafio na regulação do uso de inteligência artificial por estudantes
Enquanto a adoção rápida de IA avança, instituições discutem como regular seu uso na educação superior
Relatório aponta que 84% dos universitários brasileiros já utilizam ferramentas de IA generativa em seus estudos, mas muitas universidades ainda não possuem regras claras para essa prática.
Na velocidade crescente com que estudantes brasileiros adotam ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa nos estudos, o atraso na implementação de regulamentações pelas universidades preocupa especialistas e gestores do ensino superior. Segundo o AI Index Report 2026, publicado pelo Instituto de Inteligência Artificial Centrada no Ser Humano (HAI), da Universidade de Stanford, 84% dos universitários no Brasil afirmaram usar esse tipo de tecnologia em 2025, número que era de apenas 52% dois anos antes. Enquanto essa adesão cresce rapidamente, apenas 27 documentos institucionais sobre o uso de IA em atividades acadêmicas foram encontrados em uma pesquisa que mapeou 111 instituições públicas do país, envolvendo universidades federais e estaduais, segundo fontes ainda não oficiais.
Essa disparidade entre a velocidade de adoção dos estudantes e a lenta resposta das instituições é evidenciada por um levantamento realizado pela equipe da Folha de S.Paulo. Entre as universidades brasileiras consideradas as melhores do país — de acordo com o ranking RUF 2026 — instituições como a Unicamp e a UFMG já possuem resoluções ou guias disciplinando o uso de IA. Em contrapartida, universidades como a UFRJ ainda estão em fase de consulta às comunidades acadêmicas, aguardando diretrizes mais definitivas. Segundo informações apuradas, a expectativa é que essa dinâmica mude ao longo de 2027, após o Conselho Nacional de Educação, órgão do MEC, aprovar um parecer que obrigará todas as universidades a adotarem uma política de integridade acadêmica voltada ao uso responsável de IA num prazo de 12 meses.
O cenário de regulamentação ainda enfrenta desafios, incluindo questões de segurança da informação, responsabilidade pelo conteúdo gerado e adaptações no currículo universitário. Na Unicamp, por exemplo, o uso de IA foi regulado desde abril de 2026 por uma deliberação do Conselho Universitário. A norma proíbe o compartilhamento de dados pessoais ou sigilosos por ferramentas não autorizadas, e a universidade mantém contratos com Google e Microsoft que garantem a não utilização dos dados fornecidos para treinamentos de sistemas de IA. Além disso, a instituição responsabiliza os estudantes pelo conteúdo produzido ao utilizar essas ferramentas, embora ainda não exista consenso sobre como essa responsabilização será operacionalizada na prática.
Para especialistas ouvidos na reportagem, a autoria de trabalhos produzidos com auxílio de IA continua sendo considerada humana, embora alguns acreditam que essa perspectiva poderá evoluir. Leonardo Tomazelli, coordenador do Centro de Referência em Tecnologias de IA na Unicamp, afirmou que “a autoria continua inteiramente humana, independentemente do quanto a IA participe do processo”. Já Fábio de Miranda, coordenador do curso de ciência da computação do Insper, afirma que a noção de autoria “pura” está em declínio, e que será cada vez mais relevante a habilidade de editar e validar criticamente os resultados gerados pela IA.
Na prática, estudantes da geração que cresceu com a tecnologia já entendem o uso da IA como parte natural do processo de aprendizagem. Victor Kayan, de 23 anos e estudante de ciência da computação no Insper, explicou que, “eu sentiria minha autoria ameaçada caso eu gerasse algo que eu não consigo entender ou explicar como funciona”. A discussão, portanto, envolve também o equilíbrio entre inovação e responsabilidade acadêmica, além de possíveis mudanças no conceito de autoria em trabalhos contemporâneos.
O que sabemos?
- 84% dos universitários brasileiros usam IA generativa em 2025, aumento de 32 pontos percentuais desde 2023
- Instituições como Unicamp e UFMG já possuem regras sobre uso de IA, enquanto outras ainda estão em fase de consulta
- Conselho Nacional de Educação deve obrigar todas as universidades a criar políticas de uso de IA em até 12 meses
- Unicamp regula o uso de IA desde abril de 2026, através de uma deliberação do Conselho Universitário
Fontes
- Folha de S.Paulo imprensa





