Desafios na transformação das plantas medicinais brasileiras em produtos farmacêuticos
Embora o Brasil seja uma potência em biodiversidade, poucos medicamentos de origem nacional chegam ao mercado
A produção de medicamentos inovadores a partir de plantas medicinais enfrentam obstáculos regulatórios, econômicos e de proteção às comunidades tradicionais, apesar do potencial brasileiro.
O Brasil, conhecido mundialmente por sua vasta biodiversidade e tradição no uso de plantas medicinais, permanece como uma incógnita no desenvolvimento de produtos farmacêuticos derivados dessa riqueza natural. Segundo João Batista Calixto, pesquisador ligado à Universidade Federal de Santa Catarina e diretor-presidente do CIEnP, o país ainda dizima uma lacuna entre conhecimento científico e inovação na indústria farmacêutica, mesmo tendo uma comunidade científica de alto nível e uma biodiversidade que poderia alimentar esse setor.
De acordo com Calixto, que também escreveu um artigo para o site The Conversation, o maior paradoxo brasileiro atualmente reside na quantidade de potencial que a biodiversidade oferece e o fraco número de patentes, medicamentos e produtos com valor agregado que são efetivamente produzidos e comercializados. Ele cita que, em 2016 e 2026, apenas três fitoterápicos — o anti-inflamatório Acheflan®, o xarope Melagrião® e o calmante Sintocalmy® — tiveram estudos pré-clínicos realizados por seu grupo, sendo esses, até hoje, os únicos produtos originados de plantas brasileiras registrados na Anvisa.
Embora esses exemplos demonstrem que é possível transformar conhecimentos tradicionais em produtos comerciais eficazes e seguros, eles permanecem uma exceção diante da grande biodiversidade do país. Segundo o especialista, o sistema regulatório brasileiro para acesso a patrimônio genético e conhecimento tradicional, regulado pela Lei nº 13.123/2015, é um dos fatores que dificultam a inovação. Ele estabeleceu regras para exploração econômica e repartição de benefícios, mas, na prática, ainda não conseguiu estimular amplamente o desenvolvimento de novos medicamentos naturais.
Calixto destaca que o grande desafio não é apenas proteger a biodiversidade, mas também equilibrar essa proteção com o incentivo à pesquisa, à inovação e ao respeito aos direitos das comunidades detentoras dos conhecimentos tradicionais. Ainda segundo ele, o Brasil precisa transformar sua biodiversidade em uma infraestrutura estratégica de ciência, tecnologia e saúde, algo que, até o momento, resulta em poucos exemplos concretos de sucesso. O caso mais ilustrativo, citado pelo próprio, é o captopril®, medicamento contra hipertensão que teve origem nos estudos com veneno de jararaca, uma cobra comum no território nacional, feitos pelo professor Sérgio Henrique Ferreira na USP.
O que sabemos?
- Brasil possui alta biodiversidade e tradicional uso de plantas medicinais.
- Poucos medicamentos derivados de plantas brasileiras chegam ao mercado nacional.
- Somente três fitoterápicos desenvolvidos no Brasil estão registrados na Anvisa.
- Sistema regulatório atual dificulta a inovação com biodiversidade.
- Maior desafio é equilibrar proteção às comunidades e incentivo à pesquisa.
Fontes
- Superinteressante fonte especializada



