Ciência

Recifes de turfa submersos na costa de Moçambique revelam habitat marinho pouco conhecido

Em apuração ?

Descoberta revela a importância ecológica de antigas florestas submersas para a biodiversidade oceânica

Recifes de turfa submersos com vida marinha ao redor na costa de Moçambique
Imagem: Revista Galileu

Pesquisadores identificaram em águas rasas de Moçambique recifes de turfa formados por antigas florestas submersas que funcionam como refúgios para diversas espécies marinhas, incluindo peixes pequenos, tubarões, raias e tartarugas.

Em uma descoberta surpreendente, cientistas do Observatório Oceanográfico do Centro de Estudos Científicos de Bazaruto (BCSS), com apoio internacional, identificaram a existência de recifes de turfa na costa de Moçambique, África, que se formaram a partir de antigas florestas submersas. Essas florestas, que datam de aproximadamente 300 a 5 mil anos atrás, foram soterradas pelas elevações do nível do mar ao longo dos séculos e atualmente servem de habitat para uma biodiversidade marinha que, até então, era pouco conhecida na região.

A equipe analisou três desses recifes de turfa e comparou-os a um recife de coral próximo, observando a fauna presente, composta por invertebrados, pequenos peixes, além de grandes espécies como tubarões, raias e tartarugas. Segundo o pesquisador principal, a quantidade de espécies de peixes pequenos variava de 26 a 36 em cada recife, uma diversidade considerada compatível com a de recifes de coral, o que causou surpresa devido às diferenças de formação estrutural. Além disso, uma observação importante foi a presença de plantas marinhas e algas que crescem diretamente sobre a turfa, além de esconderijos naturais dentro de fendas e saliências, onde habitam lagostas, ostras e cracas.

"Ficamos surpresos com a quantidade de vida que esses antigos depósitos de turfa sustentam e com a quantidade de espécies que transitam entre eles e os recifes de coral próximos", afirma Mario Lebrato, que é autor principal do estudo e cofundador do BCSS. Ele explicou que, como a costa da região possui pouco fundo marinho sólido — sendo composta principalmente por areia movediça — essas plataformas de turfa expostas pelas marés oferecem um habitat sólido e necessário para a sobrevivência de várias espécies marinhas, que se fixam, se escondem e se alimentam nesses ambientes.

As análises de datação por radiocarbono e estudos químicos indicaram que a turfa se originou principalmente de plantas e árvores costeiras, e algumas amostras apresentam até 40% de carbono orgânico em peso seco. Ainda não há dados definitivos sobre quanto carbono esses recifes armazenam atualmente ou se estão desprendendo carbono de volta ao ambiente. Os recifes ficam a uma profundidade entre 2 a 4 metros, frequentemente expostos pelas marés, com temperaturas variando entre 24,5°C e 28,6°C ao longo do dia, além de receberem luz solar intensa, o que favorece o crescimento de algas e plantas marinhas.

A descoberta, publicada na revista Frontiers in Marine Science no final de setembro, é considerada inédito, pelo menos na região tropical, e levanta a hipótese de que outros recifes de turfa possam estar escondidos em costas ao redor do mundo. Ainda que esses ecossistemas sejam frágeis, devido à ação de tempestades, ciclones, erosões e movimentos de areia, eles representam uma área de grande potencial ecológico e científico. O estudo, que contou com parceria de instituições do Reino Unido, Estados Unidos e Canadá, evidencia a importância de explorar novos ambientes marinhos e ampliar o entendimento sobre a biodiversidade oceânica, especialmente em uma época em que as mudanças climáticas ameaçam esses habitats.

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O que sabemos?

  • Recifes de turfa na costa de Moçambique foram identificados por pesquisadores.
  • Esses recifes se formaram a partir de antigas florestas costeiras que foram soterradas pelo aumento do nível do mar.
  • Os recifes abrigam uma biodiversidade de espécies similar à de recifes de coral.
  • As plataformas de turfa funcionam como habitats sólidos em uma costa de areia mossa e oferecem abrigo a diversas espécies, incluindo tubarões e tartarugas.
  • Estudos indicam que esses recifes podem esconder outros similares ao redor do mundo, mas ainda não há dados sobre o armazenamento de carbono.

Fontes

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