Ciência

Estudo revela relação complexa entre religiosidade e uso de drogas em pessoas em situação de rua

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Pesquisa aponta que religião pode atuar como apoio, mas também representar riscos na continuidade do consumo

Pessoa em situação de rua com expressão pensativa, refletindo sobre fé e uso de drogas
Imagem: Jornal da USP

Uma pesquisa conduzida pela Unifesp e USP analisa a religiosidade de pessoas com dependência de drogas em situação de rua, revelando aspectos inéditos sobre o papel da fé nesses contextos.

Um estudo realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) trouxe uma compreensão mais aprofundada sobre a religiosidade de pessoas em situação de rua que fazem uso de drogas no Brasil e em Portugal. Segundo a pesquisa, a relação entre fé e dependência é multifacetada, e fatores que antes eram considerados protetores podem, na verdade, ter um efeito ambíguo ou até arriscado.

De acordo com a fonte do trabalho, a psicóloga Camila Chagas, a pesquisa, que está em fase de doutorado e contou com entrevistas feitas com 40 pessoas — na sua maioria homens — tem como objetivo compreender como a religiosidade se manifesta na trajetória de uso dessas pessoas. A autora explica que, ao contrário do que a crença popular sugere, a religiosidade muitas vezes se manteve ou até se intensificou durante o período em que os indivíduos consumiam drogas, desempenhando um papel de suporte emocional, definido por ela como “proteção subjetiva”. “Essas pessoas cultivam a religiosidade de forma muito forte no dia a dia, só que ela tinha um papel de amparo, a ideia de que ‘eu não estou sozinho, eu não morri até agora porque Deus está aqui comigo’”, afirma.

Curiosamente, a pesquisa apontou que essa ligação com a religiosidade também pode gerar riscos, já que muitos entrevistados relataram confiança excessiva na proteção divina durante o uso. Alguns acreditavam que poderiam compartilhar objetos ou não sofrer overdose, pois estavam sob a proteção de Deus, o que os colocaria em situações de maior vulnerabilidade. A psicóloga destaca que essa hipótese ainda precisa ser aprofundada em estudos futuros, mas já demonstra a complexidade do tema, que desafia a visão simplista de que religiosidade seria necessariamente uma barreira ao uso de drogas.

Outro aspecto revelado pela pesquisa foi o desconforto de alguns participantes com instituições religiosas organizadas, especialmente entre os portugueses. Segundo a fonte, alguns alegaram se sentir inadequados para frequentar locais religiosos tradicionais, como cultos, o que indica uma relação muitas vezes ambivalente ou até conflituosa com a fé institucionalizada.

O estudo foi realizado por meio de entrevistas conduzidas durante a pesquisa de doutorado da psicóloga Camila Chagas, e sua publicação promete contribuir para o entendimento de um fenômeno social complexo. Ainda não há confirmações sobre possíveis desdobramentos práticos ou intervenções específicas, mas o trabalho já mostra a importância de entender a religião de forma ampla e não simplificada ao tratar de pessoas em situação de vulnerabilidade, especialmente aquelas que enfrentam a dependência de drogas.

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O que sabemos?

  • Estudo conduzido pela Unifesp e USP analisou religiosidade de pessoas em situação de rua com dependência de drogas.
  • Pesquisa realizada com 40 pessoas, na maioria homens, por meio de entrevistas.
  • Religiosidade foi mantida ou até aumentada na trajetória de uso, atuando como 'proteção subjetiva'.
  • Religiosidade serve de amparo emocional, mas pode aumentar riscos, como confiança excessiva na proteção divina, que leva a comportamentos de risco.
  • Participantes portugueses relataram desconforto com instituições religiosas tradicionais, como o catolicismo.

Fontes

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