Estação Espacial Internacional traz preocupação devido à sua 'limpeza excessiva' de micro-organismos
Estudo aponta que ambiente extremamente esterilizado na ISS pode estar ligado a problemas de saúde dos astronautas
Pesquisa inédita revela que a Estação Espacial Internacional tem um microbioma mais pobre e mais similar a ambientes hospitalares do que à natureza terrestre, levantando questões sobre os efeitos dessa 'limpeza' na saúde da tripulação.
Uma nova pesquisa publicada na revista Cell traz uma descoberta que pode mudar a forma como pensamos as missões espaciais. Segundo o estudo, a Estação Espacial Internacional (ISS) possui um microbioma — ou seja, um conjunto de micro-organismos presentes em seu ambiente — consideravelmente mais 'limpo' do que ambientes naturais da Terra. Essa ausência de diversidade microbial foi revelada após a análise de 803 amostras coletadas por astronautas em diferentes superfícies dos módulos da estação. O resultado surpreendeu os autores do estudo, que perceberam que a comunidade microbiana da ISS é dominada por bactérias relacionadas à pele humana e resíduos de produtos de limpeza, e quase não apresenta a variedade que se encontra em solos, rios ou plantas terrestres.
Segundo fontes anônimas, a análise comparou o microbioma da estação com bases de dados de ambientes terrestres, constatando que a ISS é mais semelhante a hospitais, ambientes fechados e casas isoladas do que a qualquer espaço ao ar livre. Pequenas assinaturas microbiológicas específicas foram identificadas em cada módulo, refletindo o uso distinto de cada área: por exemplo, a academia, a cozinha e o banheiro apresentaram comunidades microbianas distintas. O estudo indica que essa 'limpeza' excessiva pode ser uma questão relevante para a saúde dos astronautas, que frequentemente relatam problemas de pele, alergias, herpes reativada e alterações imunológicas, sintomas que podem estar associados à ausência de micro-organismos benéficos necessários para o treinamento do sistema imunológico — uma teoria conhecida como hipótese da higiene, popular na medicina desde os anos 1980.
Apesar de as descobertas serem provocativas, é importante frisar que o estudo é apenas correlacional, ou seja, identifica associações, mas não prova uma relação direta de causa e efeito entre a baixa diversidade microbiana e os problemas de saúde na tripulação. Ainda não há consenso sobre se essa 'limpeza' extrema causa ou não os sintomas observados, sobretudo porque os astronautas enfrentam múltiplos fatores de estresse, como microgravidade, radiação, isolamento, sono irregular e estresse, dificultando a separação de efeitos isolados. A discussão, no entanto, ganhou atenção, especialmente diante dos planos futuros de missões à Lua e Marte, que envolverão confinar tripulações por longos períodos sem possibilidade de resgate imediato. Os autores do estudo sugerem a introdução de micro-organismos benéficos, o cultivo aumentado de plantas a bordo e uma reformulação nos materiais e desinfetantes utilizados nas naves, com o objetivo de criar ambientes mais equilibrados microbiologicamente.
Por ora, as conclusões ainda não estão confirmadas oficialmente por agências espaciais, e o próprio estudo adverte que a investigação é recente e que outros estudos, com maior aprofundamento, serão necessários para determinar o impacto real dessas condições sobre a saúde dos astronautas. O tema, que até pouco tempo parecia técnico e distante, ganhou uma relevância direta para futuras explorações humanas no espaço e também oferece insights sobre condições de ambientes fechados na Terra, como hospitais e casas isoladas, que também enfrentam desafios relacionados ao microbioma.
O que sabemos?
- A Estação Espacial Internacional tem um microbioma dominado por bactérias relacionadas à pele humana e resíduos de limpeza.
- O estudo analisou 803 amostras de superfícies da ISS, comparando o microbioma com ambientes terrestres.
- A ISS apresenta pouca diversidade microbiana, semelhante a hospitais e ambientes fechados.
- A pesquisa sugere que a ausência de micro-organismos benéficos pode estar ligada a problemas de saúde relatados por astronautas.
Fontes
- Olhar Digital fonte especializada





