Brasil

Investigação revela rede digital que ataca o direito de voto das mulheres no Brasil

Em apuração ?

Influenciadores críticos ao voto femenino ganham espaço na internet e preocupam especialistas

Tela de computador com posts e comentários relacionados ao voto feminino na internet
Imagem: BBC News Brasil

Uma extensa investigação da BBC News Brasil aponta para a circulação de conteúdos na internet que atacam o voto feminino, com participação de influenciadores ligados a círculos conservadores e comunidades de valorização masculina. O fenômeno, que ganhou destaque em junho, suscita debates sobre suas possíveis consequências na democracia brasileira.

Uma pesquisa aprofundada realizada pela BBC News Brasil revelou a existência de uma rede digital que promove ataques ao voto feminino no Brasil, estimulando discursos de desvalorização e até mesmo de rejeição ao direito das mulheres de participar das eleições. Segundo a reportagem, esses conteúdos circulam há meses na internet, especialmente em plataformas de redes sociais, onde programas, vídeos e podcasts acumulam milhares de seguidores e interações. O fenômeno ficou mais evidente em junho, quando um influenciador ligado à família Bolsonaro fez críticas à "qualidade" do voto das mulheres, colocando o tema na pauta pública.

Segundo a reportagem, esses influenciadores frequentemente compartilham frases como "o voto feminino é o erro da democracia ocidental" e responsabilizam o sufrágio feminino por problemas sociais e dificuldades enfrentadas pelos homens. Ainda segundo a investigação, muitos desses perfis fazem parte do que é conhecido como machosfera e cultura redpill — comunidades da internet que exaltam a masculinidade, a força física e a vigilância contra as intenções das mulheres. Renato Amoedo, conhecido como Renato 38ão, é um desses influenciadores. Ainda que sua conta no Instagram, com mais de 900 mil seguidores, tenha sido supostamente deletada, ele é citado na reportagem e defendia que mulheres não casadas não deveriam votar, além de criticar a instituição do direito ao voto feminino, conquistado no Brasil em 1932 por decreto.

De acordo com a fonte, Renato também argumentava que a implementação do voto feminino foi responsável pela criação do Estado do bem-estar social, porque, segundo ele, esse direito ampliou a independência financeira das mulheres ao lhes dar autonomia de votação e dependência de benefícios do governo, o que, na visão dele, seria prejudicial aos homens. Em entrevistas e podcasts, ele afirmou que estudo e trabalho não deveriam ser prioridades para as mulheres, defendendo, com linguagem chula, a ideia de que o papel delas estaria em outros lugares.

A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, também foi consultada pela reportagem e comentou o fenômeno. Segundo ela, "isso aqui é democracia, as pessoas poderem falar até isso". A ministra destacou ainda que a simples proposição de alterar o direito ao voto, que é universal e garantido na Constituição, seria inconstitucional. Para ela, a ideia de extinguir o voto feminino no Brasil exigiria uma mudança radical na carta magna, o que, até o momento, ainda não foi confirmado oficialmente por nenhuma entidade ou órgão do governo.

A influência desse discurso ultrapassou as fronteiras do Brasil, tendo ecoado em círculos conservadores nos Estados Unidos e no debate político internacional. Ainda não foi confirmado se esses conteúdos tiveram impacto concreto na opinião pública ou em processos eleitorais, mas especialistas apontam para o risco de esses discursos alimentarem uma cultura de intolerância e desinformação sobre direitos fundamentais das mulheres. O impacto na democracia e na sociedade pode ser considerado uma preocupação crescente, especialmente diante do aumento de ações na internet que questionam direitos conquistados ao longo de décadas.

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O que sabemos?

  • Discurso crítico ao voto feminino circula na internet brasileira há meses.
  • Influenciadores ligados a círculos conservadores e comunidades de valorização masculina promovem esses conteúdos.
  • A ministra Cármen Lúcia afirmou que mudar o direito ao voto no Brasil é inconstitucional.
  • O influenciador Renato Amoedo, conhecido como Renato 38ão, defendia a ideia de que mulheres não casadas não deveriam votar.
  • O fenômeno ganhou maior visibilidade após críticas de influenciador ligado à família Bolsonaro em junho.

Fontes

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