Estudo com esqueletos de Montreal desafia narrativas sobre miscigenação colonial
Pesquisa genética revela ancestralidade exclusivamente européia em ossadas do século XVII
Um estudo publicado recentemente aponta que esqueletos de colonizadores no Canadá apresentaram DNA sem sinais de mistura com indígenas ou africanos. Resultado levanta questões sobre histórias de união entre grupos na época colonial.
Um estudo inédito com ossadas do período colonial em Montreal, Canadá, desafia relatos tradicionais sobre contatos e casamentos entre colonizadores franceses e povos indígenas ou africanos na época. Segundo a pesquisa, publicada na revista científica PNAS em 5 de outubro, o DNA analisado de 45 indivíduos sepultados no Cemitério Notre-Dame, fundado em 1683, revelou ancestralidade exclusivamente europeia, sem sinais de mistura recente com grupos indígenas ou africanos. Os pesquisadores destacam que, embora os resultados mostrem uma predominância de genomas europeus, não se pode concluir que não houve qualquer tipo de relacionamento entre esses povos, especialmente porque a amostra é pequena e coletada de um único local.
Na investigação conduzida pela antropóloga Diane Martin-Moya, da Universidade de Quebec em Trois-Rivières, a análise comparou os genomas com amostras de europeus, africanos ocidentais e povos indígenas das Américas. A especialista explicou que histórias familiares de ancestrais indígenas são comuns na região, assim como testes de DNA que reforçam essa narrativa. Entretanto, ela ressaltou que a amostra foi composta por esqueletos de pessoas provavelmente de baixa renda, e que os túmulos estavam dispersos sem organização clara que indicasse vínculos familiares ou étnicos.
Segundo Martin-Moya, a análise sugere que, nos primeiros anos de Montreal, a marginalização de populações indígenas e africanas pode ter limitado suas presenças biológicas na área, refletindo uma relação social de exclusão. A pesquisa também levantou a hipótese de que o período de colonização pode não ter sido marcado por um grande número de uniões entre colonizadores e povos indígenas, ao contrário do que algumas narrativas populares sugerem. Ainda assim, ela reforça que o estudo não é definitivo e que mais investigações são necessárias para entender completamente esse período.
Especialistas como a antropóloga molecular Raquel Fleskes, do Dartmouth College, que não participou do estudo, comentaram que os resultados ajudam a entender as relações populacionais na época colonial, reforçando a noção de que, embora interações culturais e sociais tenham ocorrido, as evidências genéticas dessas conexões ainda são escassas. Além disso, ela destacou que a complexidade dos sepultamentos e as perturbações provocadas pelo crescimento urbano podem ter dificultado a preservação de um retrato mais completo da diversidade ancestral dos moradores daquela época.
De acordo com registros históricos, pessoas indígenas foram enterradas em cemitérios católicos de Montreal ao longo do século 17, embora a transferência de territórios e o afastamento das comunidades tenham contribuído para a diminuição da presença indígena na cidade. Ainda assim, o estudo recente reforça a ideia de que, ao menos na amostra analisada, a presença de ancestralidade indígena ou africana entre os colonizadores parece ter sido bastante limitada, colocando em questão algumas narrativas sobre a convivência e miscigenação nesse período inicial da colonização, até que novas evidências venham à tona.
O que sabemos?
- DNA de esqueletos coloniais de Montreal mostrou apenas ancestralidade européia.
- O estudo contou com 45 indivíduos sepultados entre 1683 e 1796.
- Resultados sugerem marginalização de povos indígenas e africanos na sociedade colonial.
- As pesquisas não descartam a possibilidade de uniões, mas apontam baixa presença genética dessas populações.
Fontes
- Aventuras na História fonte especializada





