Canetas emagrecedoras e cirurgia bariátrica: uma substituição crescente?
Estudo aponta queda nas cirurgias bariátricas em comparação com o aumento de tratamentos com análogos de GLP-1
Pacientes estão optando cada vez mais por medicamentos como a semaglutida ao invés da cirurgia bariátrica, que apresenta redução nos procedimentos realizados pelo plano de saúde, enquanto casos particulares e pelo SUS aumentam.
Nos últimos anos, uma mudança de tendência tem sido observada no combate à obesidade no Brasil. Segundo fontes ouvidas pela reportagem, o uso de canetas emagrecedoras com medicamentos como a semaglutida ganhou destaque, levando a uma redução nos procedimentos cirúrgicos bariátricos realizados por planos de saúde. Essa nova preferência, ainda em expansão, tem impacto direto na diminuição de cirurgias nos planos, embora os números no setor público continuem em alta, especialmente pelo SUS.
O caso de Vitória Masiero, uma jovem de 23 anos, ilustra bem esse movimento. Ela começou a usar uma caneta com semaglutida no ano passado e, em oito meses, perdeu cerca de 20 quilos. No entanto, ela precisou interromper o tratamento por dificuldades financeiras, já que o medicamento custava aproximadamente R$ 800 por mês, valor que ela afirma não conseguir sustentar a longo prazo. Após a suspensão, Vitória relata que parte do peso perdido foi recuperada, chegando a pesar 140 quilos. Motivada por isso, ela decidiu então passar pela cirurgia bariátrica, procedimento ao qual se submeteu em março deste ano, considerando a decisão como a melhor da sua vida, segundo suas próprias palavras.
Essa experiência revela uma tendência crescente entre pacientes: inicialmente tentam o tratamento com medicamentos por serem menos invasivos e, caso não tenham sucesso ou apresentem custos elevados, optam pela cirurgia. Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, essa mudança de comportamento tem contribuído para o decréscimo nos procedimentos bariátricos feitos por planos de saúde no Brasil. Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar indicam que, em 2023, foram realizadas 73,6 mil cirurgias bariátricas sob cobertura de planos odontológicos e de saúde, uma diminuição em relação aos anos anteriores, que registraram números de 71,3 mil em 2024 e 62,2 mil em 2025.
Por outro lado, os registros de cirurgias feitas fora do sistema de planos, especialmente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), apontam aumento. Em 2025, o número de procedimentos via SUS alcançou 14 mil, marcando o maior volume dos últimos anos, e até junho deste ano, já haviam sido realizados 8,1 mil cirurgias na rede pública. Essas diferenças entre setores indicam que, enquanto o acesso aos procedimentos por planos de saúde diminui por fatores relacionados a mudanças de perfil e custos, a demanda pelo sistema público permanece em alta, talvez impulsionada pela crescente busca por alternativas menos invasivas.
O cirurgião Luiz Vicente Berti, presidente da SBCBM (Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica), comentou que a chegada das canetas com semaglutida e outras drogas similares vem influenciando essa redução nos procedimentos cirúrgicos. Segundo ele, além do impacto na quantidade de operações, houve também uma mudança no perfil dos clientes, pois quem tinha planos mais caros, agora opta por planos mais acessíveis ou pelo SUS. Ainda não há consenso sobre o quanto essa substituição é definitiva, e as autoridades ressaltam que os tratamentos com medicamentos ainda têm efeitos colaterais manejáveis e a necessidade de uso contínuo, assim como a cirurgia, que também exige acompanhamento ao longo da vida.
O que sabemos?
- Pacientes estão mudando de cirurgia bariátrica para tratamentos com canetas emagrecedoras com semaglutida.
- Dados indicam queda de procedimentos bariátricos por planos de saúde após 2024, com redução de cerca de 4 mil cirurgias entre 2024 e 2025.
- No SUS, o número de cirurgias bariátricas aumentou, atingindo 14 mil em 2025, maior recorde recente.
- Estima-se que os tratamentos com medicamentos têm efeitos colaterais e a necessidade de uso contínuo, semelhante às cirurgicas.
- Especialistas relacionam a popularização dos medicamentos com a possível redução de cirurgias, especialmente entre beneficiários de planos de saúde.
Fontes
- Folha de S.Paulo imprensa



