Avanços de 50 anos transformam perspectivas de câncer, mas o cenário no Brasil ainda é incerto
Dados mostram melhorias significativas na sobrevida de pacientes em outros países, mas a realidade brasileira pode ser diferente
Nos Estados Unidos, a taxa de sobrevivência cinco anos para alguns cânceres triplicou nas últimas décadas, com mudanças na medicina que impactam vidas ao redor do mundo. No Brasil, o avanço ainda não é completamente comprovado, e especialistas alertam para a falta de registros nacionais comparáveis.
Até onde os avanços na medicina conseguiram transformar o tratamento e a sobrevivência de pacientes com câncer? Segundo o Relatório de Progresso contra o Câncer 2026, da Associação Americana de Pesquisa em Câncer (AACR), nos Estados Unidos, a taxa de sobrevida em cinco anos para alguns tipos de câncer saltou de 49% para 71% ao longo de aproximadamente cinco décadas. Para exemplificar, o caso da leucemia mieloide crônica, uma doença que antes tinha poucas opções de tratamento efetivo, hoje apresenta uma taxa de sobrevivência de aproximadamente 71% com o uso de medicamentos direcionados, como o imatinibe, lançado em 2001. Essa mudança não é apenas numérica; ela representa uma revolução no modo de tratar o câncer, com terapias que atacam especificamente as falhas genéticas do tumor, modificando o prognóstico de pacientes.
Outro exemplo importante é o câncer de pâncreas, cuja taxa de sobrevivência em cinco anos aumentou de 3% para 14%, ainda que esses números continuem considerados baixos. Mesmo assim, eles apontam um progresso, em parte decorrente de diagnósticos mais precoces e de tratamentos que evoluíram bastante. Para o onco-hematologista Breno Gusmão, do Comitê Médico da Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale), esses números ainda não podem ser automatizados para a situação brasileira, pois o país não possui um registro populacional tão detalhado ou comparável ao dos Estados Unidos. Ainda assim, os avanços no tratamento de tumores hematológicos, como o mieloma múltiplo, demonstram que a medicina tem evoluído, com o uso de transplantes de medula, anticorpos específicos e até tratamentos de última geração, como a terapia CAR-T.
Segundo Gusmão, o imatinibe é símbolo dessa transformação, pois mostrou que compreender a genética do tumor pode criar medicamentos altamente eficazes. Além disso, outros cânceres também vêm registrando melhorias, com novas drogas que oferecem esperança a pacientes que antes tinham prognósticos ruins. Ainda assim, o especialista alerta que o que é observado nos EUA pode não refletir a realidade brasileira, onde o acesso a tais tratamentos ainda é limitado e os registros não são abrangentes. Como explica Stephen Stefani, oncologista da Americas Health Foundation, o campo da oncologia avançou tanto que, se um clínico que trabalhasse há 15 anos voltasse a atender pacientes hoje, precisaria recomeçar do zero na sua abordagem, dada a quantidade de tratamentos e tecnologias disponíveis atualmente.
O que sabemos?
- Nos EUA, a taxa de sobrevida em cinco anos para alguns cânceres aumentou de 49% para 71% nos últimos 50 anos.
- A leucemia mieloide crônica passou de uma expectativa de poucos anos de vida para uma realidade próxima à da população geral com o uso do imatinibe.
- No câncer de pâncreas, a taxa de sobrevivência subiu de 3% para 14%.
- Especialistas alertam que esses dados não representam a situação no Brasil.
- No Brasil, a ausência de registros comparáveis dificulta a avaliação do impacto real dos avanços científicos.
Fontes
- G1 imprensa





