Em Gana, famílias usam caixões artísticos para homenagear os falecidos alinhando-se a uma tradição que mistura artesanato, cultura e história. Essas peças valorizam profissões, paixões e ocasiões especiais, refletindo a personalidade de quem partiu.
Em Gana, uma tradição cultural bastante peculiar e carregada de significado chama atenção tanto no país quanto internacionalmente: a utilização de caixões personalizados que representam a profissão ou a personalidade de quem morreu. Segundo relatos, essas peças escultóricas, que representam objetos como guitarras, canetas, peixes ou carros, são uma expressão artística que celebra a trajetória e a essência dos falecidos, oferecendo uma cerimônia de despedida mais visualmente criativa e significativa.
No funeral do músico Frederick Ofori, por exemplo, o caixão foi feito na forma de uma guitarra gigante, uma homenagem à sua paixão de vida e carreira. Ofori morreu em um acidente de trânsito e, de acordo com relatos, sua família decidiu que sua última viagem fosse acompanhada pelo símbolo de sua profissão, numa criação do artesão Daniel Oblie Mensah, responsável por uma tradição que surgiu na metade do século 20 entre artesãos de comunidades do povo Ga, na periferia de Acra.
O artesão Mensah, de 54 anos, revelou que cada encomenda relacionada à profissão ou paixão da pessoa falecida é uma oportunidade de homenagear de forma mais verdadeiramente pessoal. Segundo ele, esses caixões custam aproximadamente 10.000 cedis ganeses — cerca de R$ 4.900 — uma soma que reflete a complexidade e o valor artístico das peças. Além de artesão, Mensah se considera também um produtor e um artista, já que sua obra une esses dois aspectos em homenagens que vão além do simples uso funerário.
A tradição, que também inclui caixões em formato de peixes para pescadores, vagens de cacau para agricultores, carros para motoristas e Bíblias para figuras religiosas, tem origem na influência dos palanquins usados por chefes tradicionais na região. Apesar das obras serem feitas com minúcia e talento artístico, muitas acabam enterradas, não sendo expostas; contudo, algumas peças, como um caixão em forma de guitarra do artista Paa Joe, chegaram a integrar museus internacionais, como o Museu Metropolitano de Arte de Nova York.
Outro exemplo recente foi o funeral do professor Samuel Tetteh, conhecido por toda a comunidade como "Teacher", que dá aulas há mais de meio século em uma comunidade de Ga Sul, nos arredores de Acra. Tetteh, que morreu em 1943 e tinha uma trajetória marcada pelo ensino, foi homenageado com um caixão em forma de uma grande caneta, confeccionado por Mensah, que levou cerca de duas semanas de trabalho. Segundo relatos, em seu funeral, também houve a presença de familiares e visitantes que cumprimentaram-se na entrada da casa antes de se despedir do professor.
De acordo com fontes locais, a tradição ainda está viva e inspira também uma vertente artística, com peças que hoje ocupam um espaço na arte contemporânea, embora seu uso principal continue sendo o funeral. Ainda não é oficial, mas essa cultura de arte funerária vem despertando interesse internacional, colocando Gana em destaque na conversa sobre rituais de despedida que combinam criatividade, cultura e identidade pessoal.
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O que sabemos?
✓Famílias em Gana usam caixões personalizados para homenagear profissões ou características dos falecidos.
✓São produzidos caixões em forma de objetos como guitarras, canetas, peixes, carros ou Bíblias.
✓As peças custam cerca de 10.000 cedis ganeses (aproximadamente R$ 4.900).
✓Artesãos como Daniel Oblie Mensah criam essas peças, que hoje também são valorizadas como arte contemporânea.
✓Alguns desses caixões já foram expostos em museus internacionais, como o Museu Metropolitano de Nova York.