Ciência

Estudo relaciona mudanças climáticas às inundações mortais no Nepal

Em apuração ?

Nepal pretende solicitar US$ 20 milhões da ONU para reconstrução, apontando efeito das mudanças climáticas nas enchentes

Montanhas do Himalaia com sinais de derretimento de geleiras, refletindo o impacto das mudanças climáticas.
Imagem: BBC News Brasil

Cientistas vinculam aumento das temperaturas e derretimento de geleiras às enchentes do mês passado na fronteira entre Nepal e Tibete. Autoridades planejam pedido de financiamento ao Fundo da ONU para ajuda na reconstrução.

Uma nova análise científica feita pelo grupo de pesquisa World Weather Attribution revelou que as mudanças climáticas tiveram um papel provável nas inundações devastadoras ocorridas no Nepal no mês passado. Com mais de 1,4 mil mortos e milhares de desaparecidos até a quarta-feira (16/09), o desastre provocou destruição em cidades e vilarejos na fronteira com o Tibete, além de prejudicar a infraestrutura local. Segundo informações da própria entidade, o estudo aponta que o aumento das temperaturas na região, cerca de 1,5°C nos meses de julho e agosto, devido à ação humana, contribuiu para o derretimento acelerado das geleiras e do permafrost, tornando as áreas mais frágeis.

Segundo a cientista Friederike Otto, do Imperial College London, que assinou o estudo, “não há absolutamente nenhuma dúvida de que as mudanças climáticas provocadas pela ação humana criaram condições prévias para o desastre.” Isso porque o colapso de uma parede rochosa e de gelo de uma geleira perto do pico de Langtang Lirung foi o desencadeador imediato das enchentes. Ainda de acordo com o estudo, as fortes temperaturas também aceleraram o degelo das geleiras, que vinham perdendo cerca de meio metro de espessura por ano, deixando as paredes de gelo mais instáveis. A combinação de fatores, incluindo uma intensa queda de neve em outubro e novembro do ano passado, contribuiu para o volume de água que inundou a região no início deste ano.

O governo do Nepal, segundo informações apuradas pela BBC News Brasil, planeja utilizar esse estudo como principal evidência para solicitar auxílio financeiro ao Fundo das Nações Unidas para Resposta a Perdas e Danos, uma iniciativa lançada no ano passado que exige dos países provas de que os prejuízos ocorrem por causa das mudanças climáticas. Para a solicitação, o país deve pedir cerca de US$ 20 milhões (aproximadamente R$ 100 milhões), recursos que serão utilizados na reconstrução de áreas afetadas. As autoridades nepalesas já vêm preparando imagens de satélite, drones e relatórios preliminares para embasar o pedido, que deve destacar o papel do clima na fragilização da estrutura geológica da região.

O estudo também traz à tona uma possível influência de um terremoto de magnitude 7,8, ocorrido em 2015, que teria enfraquecido ainda mais a estrutura rochosa de Langtang Lirung, um elemento que contribuiu para o colapso. Ainda não há confirmação oficial de que o terremoto ou o clima tenham sido os fatores principais — autoridades locais esperam que esse documento sirva de base para reforçar sua reivindicação junto à ONU, destacando a influência do aquecimento global na ocorrência do deslizamento que desencadeou as enchentes. Assim, o fenômeno não é apenas uma tragédia natural, mas também um exemplo de como as mudanças ambientais agravaram o desastre, reforçando a importância de ações globais contra o aquecimento do planeta.

Publicidade

O que sabemos?

  • Estudo vincula mudanças climáticas às enchentes no Nepal.
  • Nepal planeja solicitar US$ 20 milhões à ONU para reconstrução.
  • Mais de 1.4 mil pessoas morreram e 6.150 estão desaparecidas.
  • Temperaturas na região ficaram cerca de 1,5°C mais altas devido à ação humana.

Fontes

Publicidade