Impactos do El Niño na agricultura brasileira: mudanças e incertezas
Fenômeno climático altera padrões de chuva e calor, afetando produção de alimentos no país
Pesquisadores mapeiam efeitos do El Niño na agricultura e alertam para possíveis perdas na safra 2023/2024, enquanto o clima varia de região para região.
O fenômeno climático El Niño, que se caracteriza pelo aquecimento das águas superficiais do oceano Pacífico na região equatorial, tem causado efeitos variados na agricultura brasileira, segundo informações divulgadas por pesquisadores e entidades do setor. Em 2023/2024, a produção de grãos no país sofreu uma queda expressiva de 21,4 milhões de toneladas, uma consequência direta do impacto do fenômeno, de acordo com dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) em parceria com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), e da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Ainda não confirmado oficialmente por outras fontes, esse levantamento aponta que as mudanças no clima, influenciadas por esse evento natural, redesenham o mapa da produção agrícola nacional.
Segundo a CNA, os ganhos e perdas no setor dependem de diversas variáveis como distribuição de chuvas, localização, fase de desenvolvimento das plantas, capacidade do solo de armazenar e drenar água, além de fatores como genética das culturas e manejo agrícola. Para ajudar os agricultores a enfrentarem essa volatilidade, há um arsenal científico em ação para avaliar as condições de cada região e antecipar os efeitos do El Niño. O fenômeno, que nasce do aquecimento das águas do Pacífico, provoca mudanças nos padrões de circulação atmosférica e marítima ao redor do planeta, levando a impactos distintos na agricultura brasileira.
Segundo projeções do Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos, ligado à NOAA, a probabilidade de o El Niño atingir uma categoria “muito forte” no período entre o outono e o inverno do hemisfério norte de 2026/2027 supera 90%. Há também uma estimativa de 75% de que seu grau de intensidade seja maior do que qualquer episódio registrado desde 1950, o que gera preocupação entre produtores e especialistas. Francisco César Urenha, diretor-presidente da Cooperativa dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo (Copercana), declarou que “um El Niño forte significa que as mudanças climáticas vão afetar diretamente o nosso negócio e o nosso bolso. A colheita pode ser prejudicada se as chuvas atrapalharem a moagem, podendo afetar o teor de sacarose da cana”.
O impacto do El Niño, porém, não é uniforme no Brasil. No Sul, a tendência é de aumento na quantidade e na frequência das chuvas, o que por si só já causou enchentes que afetaram mais de 2 milhões de pessoas em 2024, de acordo com as imagens dos leitos quase secos dos rios amazônicos. No Norte e Nordeste, esse clima favorece as secas na Amazônia e no interior do Nordeste, agravando problemas como a escassez de água. Para o Centro-Oeste e Sudeste, temperaturas mais elevadas, ondas de calor e períodos de baixa umidade são os efeitos mais comuns. Essas alterações climáticas, que normalmente acontecem a cada dois a sete anos, fazem o cenário alimentar do Brasil ficar cada vez mais incerto, com algumas culturas sendo favorecidas e outras expostas à seca e à perda de produtividade. Entre as culturas mais afetadas estão o milho de sequeiro, o feijão, as pastagens e a pecuária no Norte e Nordeste, onde a falta de chuva demanda maior atenção dos produtores, enquanto o Sul pode registrar uma maior disponibilidade de água para soja, milho de verão, arroz irrigado e pastagens.
O que sabemos?
- O El Niño do período de 2023/2024 causou queda de 21,4 milhões de toneladas na produção de grãos no Brasil.
- Projeções indicam mais de 90% de chance do fenômeno atingir intensidade 'muito forte' entre 2026/2027.
- Aumento de chuvas no Sul em 2024 causou enchentes que afetaram mais de 2 milhões de pessoas.
- Secas na Amazônia e Nordeste estão relacionadas às condições do El Niño.
- Temperaturas elevadas e ondas de calor são comuns no Centro-Oeste e Sudeste durante o fenômeno.
Fontes
- Revista Pesquisa FAPESP fonte oficial




