Do urânio ao nióbio: como o Brasil aprendeu lições estratégicas sobre terras raras
O percurso histórico da energia nuclear no Brasil revela desafios de soberania e tecnologia em recursos minerais estratégicos
Desde a década de 1940, o Brasil enfrenta pressões externas e limitações tecnológicas na exploração de minerais atômicos como a monazita, uma experiência que moldou sua política científica e energética até os anos 1970.
Após a Segunda Guerra Mundial, o Brasil direcionou seus esforços para o uso pacífico da energia nuclear, motivado pela relevância estratégica dos minerais extraídos da areia monazítica nas regiões do Espírito Santo e da Bahia. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, renomados cientistas brasileiros como Cesar Lattes, Mário Schenberg e José Leite Lopes, juntamente com o almirante Álvaro Alberto, foram fundamentais nesse movimento inicial que buscava desenvolver capacidades nucleares nacionais.
Em 1946, o governo do presidente Eurico Gaspar Dutra criou a Comissão de Energia Atômica, que viria a ser o embrião da atual Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen). O objetivo era estudar, controlar e proteger os chamados "minerais atômicos", parte essencial para o projeto de independência tecnológica do país. Contudo, o Brasil logo enfrentou severas pressões internacionais, principalmente dos Estados Unidos e do Reino Unido, que buscavam garantir acesso à monazita brasileira. A areia monazítica era, segundo a reportagem, largamente exportada para o exterior muitas vezes sem contrapartida tecnológica, inclusive levada como "lastro" em navios cargueiros, sem autorização das autoridades brasileiras.
Essa experiência de dependência e tentativas de exploração desigual ajudou a consolidar a percepção no Brasil de que a autonomia científica e tecnológica seria condição indispensável para sua soberania. Neste contexto, em 1951, foi criado o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), uma instituição que estimulou a pesquisa e a inovação com alcance nacional.
Nas décadas seguintes, o país consolidou sua infraestrutura nuclear. Além da Comissão de Energia Atômica, institutos como o Instituto de Energia Atômica foram fundados, e o reator IEA-R1 foi construído, simbolizando o avanço técnico do Brasil nessa área. Nos anos 1970, o programa nuclear alcançou nova dimensão com a implementação da usina Angra 1, que operava com tecnologia americana da Westinghouse e utilizava combustível importado.
Em 1975, o Acordo Nuclear Brasil–Alemanha foi firmado prevendo a construção de oito usinas nucleares no país e a transferência plena de tecnologia. Contudo, segundo a Folha, fatores como pressões externas, dificuldades econômicas internas e limitações tecnológicas do acordo frustraram muitos dos objetivos originais do programa, deixando o Brasil ainda dependente de tecnologias estrangeiras para o desenvolvimento completo do setor.
Esse histórico entre o urânio e outros minerais, como o nióbio, revela as complexidades de uma trajetória marcada por desafios diplomáticos, científicos e estratégicos. O tema das terras raras, utilizado em diversas tecnologias modernas, ressoa dessa experiência brasileira com a energia nuclear, destacando a importância de políticas sólidas para explorar e proteger recursos naturais que são cruciais para a autonomia nacional.
O que sabemos?
- O Brasil iniciou na década de 1940 o uso pacífico da energia nuclear, inspirado por cientistas e líderes como Cesar Lattes e Álvaro Alberto.
- Em 1946, foi criada a Comissão de Energia Atômica, que deu origem à atual Cnen, para controlar minerais atômicos como a monazita.
- O país enfrentou pressões dos EUA e Reino Unido para ceder acesso à monazita, que era exportada sem contrapartida tecnológica.
- Nos anos 1970, o programa nuclear brasileiro avançou com a usina Angra 1 e o acordo nuclear com a Alemanha, mas dificuldades limitaram a transferência de tecnologia.
O que ainda não foi confirmado?
- Informações divulgadas apenas pela Folha de S.Paulo aguardam confirmação por outras fontes.
Fontes
- Folha de S.Paulo imprensa