Brasil

Pesquisadores descobrem DNA de vírus de varíola ovina em manuscritos medievais

Em apuração ?

Estudo revela que vírus que afeta ovelhas tem história de milhares de anos na Europa

Manuscrito medieval em pergaminho com textos e ilustrações antigas
Imagem: Smithsonian Magazine

Cientistas identificaram traços do vírus da varíola ovina em documentos históricos com mais de mil anos, sugerindo que a doença acompanha o continente há milênios.

Uma equipe de pesquisadores anunciou a descoberta de traços de DNA do vírus da varíola ovina — uma doença altamente contagiosa que pode ser fatal para rebanhos de ovelhas — em manuscritos medievais conservados na Europa. Segundo uma publicação recente na revista Science Advances, esses vestígios indicam que a presença do vírus no continente remonta há aproximadamente 3.700 anos, muito antes do que se imaginava até então.

O estudo, conduzido por cientistas que coletaram amostras de manuscritos de diversas instituições, mostra que o DNA do vírus foi encontrado em documentos datados do século VIII ao século 14. Entre esses, estão o York Gospels, um manuscrito ilustrado de origem medieval com cerca de 1.000 anos, e o Corpus Glossary, um dicionário antigo feito por volta de 800 d.C. Além disso, uma cópia anotada das Epístolas de São Paulo, criada ao redor do ano 700, também apresentou sinais do vírus. Surpreendentemente, a pesquisa revelou que o DNA do vírus não estava apenas em pergaminhos feitos de pele de ovelha, mas também em páginas produzidas a partir de peles de bezerro e de cabra, além de papel, sugerindo possíveis contaminações cruzadas ou uso de derivados animais na confecção do material.

Segundo um dos autores do estudo, o geneticista Louis L’Hôte, da University College Dublin, “é possível que arquivos e bibliotecas ao redor do mundo também contenham vestígios genéticos de surtos de doenças em animais no passado”. A equipe também analisou amostras de dentes de ovelha encontradas em sítios da Idade do Bronze na Rússia e no Cazaquistão, o que levou a Universidade de Cambridge a afirmar que a presença do vírus na Europa e na Ásia pode ser muito mais antiga do que se tinha conhecimento, atingindo pelo menos 3.700 anos. Com isso, a pesquisa não só fornece uma nova perspectiva sobre a evolução da vírus e sua história na humanidade, mas também aponta que a bactéria pode ter sido uma ameaça constante aos animais de criação.

Além disso, os pesquisadores compararam o DNA antigo com amostras modernas, criando uma “árvore genealógica” que mostra como as diferentes linhagens do vírus evoluíram ao longo dos séculos. Uma das conclusões é que as principais linhagens do vírus da varíola ovina, além do vírus da varíola caprina e da doença de pele de nódulos, começaram a divergir de um ancestral comum entre 11.500 e 3.700 anos atrás, período em que o manejo de rebanhos por humanos passou por grandes mudanças. Os cientistas também destacam que o genoma do vírus tem se mantido bastante estável ao longo do tempo, o que pode ajudar a desenvolver estratégias mais eficazes de combate à doença atualmente.

Essas descobertas, divulgadas por diferentes especialistas, ainda aguardam confirmações adicionais, já que o estudo foi baseado em análises de DNA antigo e as interpretações continuam em fase de revisão. De qualquer modo, a pesquisa abre uma janela fascinante para entender como patologias animais atravessaram milênios, influenciando não só a saúde dos rebanhos, mas também aspectos das sociedades humanas ao longo da história.

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O que sabemos?

  • DNA do vírus da varíola ovina foi encontrado em manuscritos medievais na Europa.
  • A descoberta indica que o vírus tem pelo menos 3.700 anos de história.
  • Os traços foram encontrados em pergaminhos de diferentes origens, incluindo pele de ovelha, bezerro e cabra, além de papel.
  • Estudos com dentes de ovelha apontam a presença do vírus na Idade do Bronze na Rússia e Cazaquistão.
  • Pesquisadores criaram uma árvore genealógica que mostra como o vírus evoluiu ao longo de milênios.

Fontes

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