Setor de softwares em São Paulo enfrenta três anos de demissões em massa e mudança no perfil dos trabalhadores
Pesquisadores analisam impacto da flexibilização trabalhista na indústria de tecnologia paulista
Estudo da USP revela que o mercado de software em São Paulo manteve níveis elevados de demissões por três anos consecutivos, com mudanças no perfil dos profissionais afetados e na relação de poder entre empregados e empresas.
Uma pesquisa recente de mestrado realizada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP) trouxe à tona um panorama preocupante para o setor de softwares em São Paulo. Segundo a própria pesquisa, conduzida por Thais de Oliveira Rocha, as demissões em massa neste segmento persistiram de forma elevada por três anos consecutivos, marcando uma transformação significativa na estrutura do mercado de trabalho da área. Os dados mostram que, antes da pandemia, a média anual de demissões compulsórias era de cerca de 40 mil. Com o início da crise sanitária, esse número aumentou para aproximadamente 71 mil, permanecendo nesse patamar até 2024. Além disso, as demissões voluntárias, que representavam uma parcela menor em anos anteriores, tiveram forte alta, atingindo 112 mil casos em 2021, antes de cair para 60 mil em 2023. Segundo a pesquisadora, esse aumento das demissões em massa ocorreu devido à mudança na conjuntura econômica, marcada pela elevação dos juros e uma maior cautela das empresas ao assumir riscos. A partir de 2022, empresas que haviam se beneficiado inicialmente de facilidade de acesso a capital de risco e juros baixos passaram a reestruturar suas folhas de pagamento, promovendo cortes significativos. "Começaram então as demissões em massa, justificadas pela volta do aumento dos juros e por uma certa mudança no perfil dos trabalhadores que as empresas estavam buscando", explicou Thais. Os dados utilizados na pesquisa foram obtidos a partir da base da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) e da Classificação Brasileira de Ocupações (CBO). Surpreendentemente, o perfil dos demitidos mudou ao longo dos anos. Enquanto em 2022, os cortes afetaram principalmente profissionais mais experientes, homens brancos, com mais de 30 anos, ensino superior completo e salários elevados, nos anos seguintes aumentou a participação de mulheres e negros na população demitida. Dados ainda não confirmados oficialmente indicam que, em 2023 e 2024, cerca de 21% dos demitidos eram mulheres, que representam aproximadamente 17% do setor, enquanto a participação de trabalhadores negros atingiu 31%. Para Thais, essa mudança demonstra que as demissões deixaram de atingir apenas cargos mais altos e passaram a incluir também profissionais em funções de base na cadeia de desenvolvimento de software. A análise aponta que esse padrão evidencia uma reestruturação do mercado, com uma relação mais desigual entre empresas e trabalhadores, onde o poder de barganha dos profissionais foi reduzido, salários caíram e os cortes passaram a afetar uma gama mais ampla de empregados. A pesquisadora destaca ainda que, ao contrário de crises pontuais, essas demissões permaneceram elevadas por vários anos, indicando uma mudança estrutural mais profunda no setor tecnológico de São Paulo.
O que sabemos?
- Demissões em massa no setor de software paulista persistiram por três anos consecutivos.
- Antes da pandemia, a média de demissões anuais era de 40 mil; após 2020, passou a cerca de 71 mil.
- Aumento de demissões voluntárias foi registrado em 2021, chegando a 112 mil, mas caiu para 60 mil em 2023.
- Perfil dos demitidos mudou, incluindo mais mulheres e pessoas negras nos anos recentes.
- Mudanças indicam uma reestruturação do mercado de trabalho na área de tecnologia, com impacto na relação de poder entre empregados e empresas.
Fontes
- Jornal da USP fonte oficial





