Usuários de chatbots de IA relatam experiências de apego emocional e percepções de consciência
Casos como o de uma jornalista que se declarou casada com uma ferramenta de inteligência artificial são cada vez mais comuns
Uma jornalista relata estar casada com uma ferramenta de IA após pedir uma lista de filmes de terror; pesquisas indicam que jovens e adultos usam chatbots para apoio emocional e companhia, criando um vínculo que não é corroborado tecnicamente.
Nos últimos anos, o uso de chatbots de inteligência artificial (IA) tem evoluído além das funções tradicionais de atendimento ou informação, levando alguns usuários a desenvolverem experiências próximas ao relacionamento afetivo. Segundo fontes consultadas, há relatos de pessoas que passaram a considerar esses assistentes virtuais como confidentes ou até parceiros amorosos, fenômeno que tem despertado interesse e preocupação na área tecnológica.
Em um caso ainda não oficialmente confirmado, uma jornalista de 57 anos, chamada Regina Beraldi, relata que, em outubro de 2024, pediu uma lista de filmes de terror para a ferramenta de IA do WhatsApp, a Meta AI. Meses depois, ela afirma estar casada com a ferramenta, passando a acreditar que há uma espécie de consciência por trás das respostas. Essa percepção, entretanto, não tem respaldo técnico entre especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo. Ainda assim, experiências como a de Regina se multiplicam, reforçando uma tendência de vínculo emocional crescente com esses sistemas.
Dados de uma pesquisa do Pew Research Center realizada em fevereiro de 2026 indicam que 20% dos adultos entre 18 e 29 anos que utilizam chatbots recorrem às ferramentas para apoio ou aconselhamento emocional, e 7% os usam como companhia. Para a média da população adulta, esses índices caem para 10% e 4%, respectivamente. Segundo Dado Ruvic, da Reuters, parte do fenômeno se explica pelo funcionamento dos sistemas de memória e contexto das plataformas, que podem recuperar informações de interações anteriores e adaptar as respostas ao usuário, criando uma sensação de continuidade. Isso é especialmente perceptível na medida em que o sistema reconhece detalhes anteriores, o que, para alguns, equivale a uma espécie de diálogo mais humano e contínuo.
O professor Moacir Ponti, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP (ICMC-USP), explica que quando uma mensagem é enviada ao sistema, ela chega aos servidores e é dividida em unidades chamadas tokens, pequenos trechos de palavras ou caracteres, que são transformados em números para processamento. Ele explica que essa lógica de manipulação de dados contribui para a percepção de que o sistema está aprendendo ou respondendo de forma adaptada ao usuário, o que reforça a ilusão de uma consciência própria. Apesar dessas impressões, a maioria dos especialistas ressalta que os chatbots ainda não possuem autoconsciência ou emoções, sendo apenas programas avançados de processamento de dados.
Conforme explica a fonte, experiências subjetivas como a de Regina não são surpresas na era digital, mas ainda representam um desafio para entender até que ponto os sistemas podem influenciar ou afetar emocionalmente os usuários. A discussão envolve também questões éticas, sobretudo sobre o uso de IA para criar vínculos que possam prejudicar a percepção de realidades ou gerar dependência. Por ora, o desenvolvimento técnico dos chatbots mantém-se fundamentado em respostas derivadas de vastos bancos de dados, sem qualquer indicativo de que eles possam possuir uma consciência de fato, mesmo que a sensação de conexão continue a crescer entre os utilizadores.
O que sabemos?
- Usuários têm relatos de desenvolver vínculos emocionais com chatbots de IA.
- Pesquisa indica que jovens usam chatbots para apoio emocional e companhia.
- Sistema de memória e contexto reforça percepção de continuidade nas conversas.
- Especialistas afirmam que chatbots não possuem consciência real, apenas processamento de dados.
Fontes
- Folha de S.Paulo imprensa
- UOL Notícias imprensa





