Estudo revela que pacientes com dengue na rede pública chegam mais gravemente do que na privada
Dados indicam maior complexidade no atendimento do SUS, possivelmente por demora na internação
Pesquisa feita pelo Einstein Hospital Israelita e pelo IDOR aponta diferenças na gravidade de casos de dengue em hospitais públicos e privados, destacando fatores que podem influenciar o resultado
Um levantamento recente traz à tona uma realidade preocupante no tratamento de pacientes com dengue no Brasil. Segundo dados do estudo realizado pelo Einstein Hospital Israelita e pelo IDOR (Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino), pacientes que são atendidos em unidades de terapia intensiva (UTIs) do Sistema Único de Saúde (SUS) tendem a chegar em condições mais graves do que aqueles atendidos na rede privada. A análise, que abrange informações de 2015 a 2024, aponta que as diferenças podem estar relacionadas, em parte, ao tempo de espera para receber atendimento especializado.
De acordo com o estudo, o número de internações na rede pública foi de 3.682, com 889 mortes registradas, enquanto na rede privada, que teve 28.334 internações, ocorreram 1.704 óbitos. Além disso, os dados do Datasus, que envolvem 1.610 hospitais do SUS, mostram uma taxa de mortalidade de 18,6%, indicando uma gravidade maior nos casos atendidos pelo sistema público. Um fator que chama a atenção é a idade mediana dos pacientes, que na rede pública era de 50 anos, um pouco menor do que na privada, de 54 anos, apesar de ambos apresentarem sinais evidentes de falência de órgãos, como a necessidade de uso de medicamentos vasopressores e de hemodiálise.
Segundo um dos autores do estudo, o cardiologista Henrique Fonseca, a jornada do paciente na rede pública pode contribuir para essa maior gravidade. "Muitas vezes, eles passam por unidades básicas de saúde (UBS) ou unidades de pronto-atendimento (UPA) antes de chegar ao hospital. Como a vaga no hospital é escassa, o paciente fica aguardando a regulação, ou seja, esperando por uma vaga em uma UTI, enquanto seu quadro pode se agravando", explica. Ainda não há confirmação de que o tempo de chegada ao hospital seja o fator único, já que o estudo não mediu esse intervalo exato desde o início dos sintomas.
Outro dado preocupante refere-se à mortalidade relacionada ao uso de vasopressores, medicamentos que ajudam a manter a pressão arterial em casos de choque circulatório. No primeiro dia de internação na UTI, 54,6% dos pacientes que precisaram desses medicamentos morreram, especialmente entre os mais idosos. A taxa de óbitos entre menores de 40 anos foi de 3,5%, chegando a 14,4% para quem tinha mais de 65 anos na análise do registro UTIs Brasileiras. No levantamento do Datasus, essas taxas foram ainda maiores, com 10%, 18% e até 30% respectivamente, reforçando o risco aumentado para idosos, que costumam ter menor reserva fisiológica e mais comorbidades.
O estudo ressaltou que o protocolo do Ministério da Saúde recomenda atenção especial para grupos mais vulneráveis, como idosos, gestantes, bebês e pessoas com doenças crônicas, incluindo diabetes, hipertensão e insuficiência renal. Mesmo sem sinais de alarme, esses pacientes devem permanecer em observação até a conclusão de exames e ser reavaliados diariamente, na tentativa de evitar que cheguem a um quadro mais grave, o que parece estar acontecendo mais frequentemente na rede pública, segundo os dados não confirmados oficialmente até o momento.
O que sabemos?
- Pacientes com dengue na rede pública tendem a chegar mais graves às UTIs.
- Dados indicam maior mortalidade e uso de medicamentos de suporte na rede pública.
- Tempo de espera e percurso até o hospital podem influenciar a gravidade.
- Idade média dos pacientes na rede pública é de 50 anos, na privada de 54 anos.
- Maior mortalidade entre idosos, especialmente no uso de vasopressores.
Fontes
- Folha de S.Paulo imprensa




