Política

Pesquisa inédita revela influência religious nas eleições brasileiras

Em apuração ?

Monitoramento de cultos e missas aponta menções políticas e atos eleitorais durante período eleitoral

Culto religioso sendo transmitido pelo YouTube durante eleição brasileira
Imagem: Folha de S.Paulo

Durante as duas últimas semanas antes do primeiro turno das eleições, uma pesquisa realizada por um grupo de estudos na UFRJ analisou milhares de cultos religiosos transmitidos pelo YouTube em todo o Brasil. Os resultados mostram diferenças significativas entre grupos religiosos na postura em relação à política, com destaque para a propagação de apoiadores de candidaturas, principalmente em igrejas evangélicas.

Uma pesquisa inédita conduzida por um grupo de pesquisa na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com a organização More in Common, monitoreou mais de 7.000 cultos e missas transmitidos ao vivo via YouTube nas duas semanas que antecederam o primeiro turno das eleições brasileiras. A análise, que ainda aguarda confirmação oficial, revela um panorama complexo das manifestações religiosas durante o período eleitoral, com particular atenção às menções políticas, debates e atos de apoio a candidatos.

Segundo o pesquisador responsável pelo estudo, a análise envolveu a transcrição de mais de 13 mil horas de vídeos de cultos das principais tradições cristãs com maior peso demográfico no país: igrejas católicas, igrejas batistas e Assembleias de Deus. Entre esses, aproximadamente 10% do total de igrejas foi monitorado, incluindo quase 2.000 missas e milhares de cultos. A escolha por essas tradições leva em conta o impacto e a presença maciça dessas comunidades na sociedade brasileira.

Apesar de a percepção comum indicar que a política também estaria presente na liturgia católica, a pesquisa aponta que as menções ao tema nas missas monitoradas foram bastante restritas, representando menos de 1% das cerimônias — especificamente, 0,7%. Já entre os batistas, esse percentual subiu para 1,4%. Em contraste, o levantamento revelou que cerca de 8,3% das ações nas Igrejas Assembleia de Deus continham alguma referência política ou apoio explícito a candidatos, o que, segundo os pesquisadores, é uma proporção elevada. Ainda não se sabe ao certo o motivo dessa maior incidência, mas fatores como a descentralização institucional dessa denominação e sua forte ligação com as comunidades locais podem estar relacionados.

Um dado preocupante destacado na pesquisa é o protagonismo das igrejas evangélicas na veiculação de apoios a candidatos a cargos majoritários e proporcionais. Os discursos de apoio, muitas vezes explícitos, aconteceram até mesmo durante as transmissões ao vivo. Um exemplo mencionado por um dos pesquisadores foi de um culto em Goiás, onde um pastor afirmou que “não pode pedir voto, mas pode orientar”. Segundo a declaração, o pastor orientou a assistência a aceitar uma oferta de apoio político, dizendo: “Se você aceitar, eu vou colocar um adesivo no seu carro”. Algumas igrejas chegaram a interromper as transmissões no YouTube para dar indicações de voto, fato que reforça a presença desse tipo de propaganda religiosa-política.

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Já no caso das missas católicas, a análise realizada durante a fase de maior impacto da competição eleitoral abordou um silêncio quase completo no que se refere ao tema, com muito poucas menções aos debates eleitorais ou às figuras de destaque, como Nossa Senhora Aparecida, cuja festividade foi marcada por discursos quase neutros. Ainda assim, os autores do estudo ressaltam que essa resistência às menções políticas não deve ser interpretada como uma ausência de influência, mas como uma escolha de não se envolver explicitamente na discussão política durante cerimônias religiosas tradicionais.

O estudo, que por enquanto ainda não foi confirmado oficialmente por autoridades, é importante por revelar um panorama que até então era pouco estudado no Brasil: a interação entre religião e política na esfera pública, especialmente nos ambientes mais protegidos, como os cultos online. A leitura dos dados sugere que o papel de líderes religiosos na orientação política pode exercer influência significativa sobre seus fiéis, sobretudo em contextos eleitorais, levantando debates sobre os limites e responsabilidades dessas igrejas. O tema, ainda sob investigação, traz à tona a necessidade de maior transparência e de uma discussão mais ampla sobre o uso religioso no processo democrático brasileiro.

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O que sabemos?

  • Monitoramento de mais de 7.000 cultos e missas transmitidos pelo YouTube.
  • Análise de mais de 13 mil horas de vídeo, focando em igrejas católicas, batistas e Assembleias de Deus.
  • Propaganda eleitoral nas igrejas católicas e batistas é de cerca de 0,7% a 1,4%.
  • Nas Assembleias de Deus, o percentual de cultos com menções políticas chega a 8,3%.
  • As referências políticas no meio evangélico focaram sobretudo em candidaturas proporcionais, com Apoios explícitos.

Fontes

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