Política

Eleição presidencial de 1998 foi a única sem debates na TV e sua conexão com o cenário atual

Em apuração ?

Falta de debates na eleição de 1998 e 2026 revela história de decisões que marcaram os pleitos no Brasil

Ilustração de uma cabine de TV com candidatos em silêncio durante uma campanha eleitoral
Imagem: BBC News Brasil

A eleição de 1998 foi a única desde a redemocratização sem debates na TV, uma situação que se repete em 2026. Naquele ano, a ausência foi devido à recusa de Fernando Henrique Cardoso em participar, enquanto neste, o cancelamento do debate da Globo deixou o cenário ainda mais restrito.

A eleição presidencial de 1998 no Brasil marcou um ponto único na história democrática do país: foi a única ocasião desde a redemocratização em que os candidatos a presidente não participaram de debates na televisão. Segundo fontes vinculadas à história política brasileira, essa ausência se deu em um momento de forte impacto político e econômico. Naquela época, Fernando Henrique Cardoso, que liderava as pesquisas e se preparava para reeleição, optou por não participar de debates durante toda a campanha eleitoral, justificando sua decisão com a crise econômica gravíssima que o país enfrentava. Ainda de acordo com fontes da memória oficial da Globo, a legislação eleitoral obrigava que todos os candidatos fossem convidados para os debates ou, na ausência de acordo, que fosse realizado um sorteio para estabelecer uma agenda de encontros. No entanto, a emissora considerou essa solução inadequada, já que a recusa do então presidente em participar fez com que os debates fossem completamente cancelados. A eleição daquele ano foi bastante atípica, com 12 candidatos na disputa, e o resultado foi a reeleição de FHC no primeiro turno, em 4 de outubro, com 53,06% dos votos válidos. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, Lula, do PT, ficou em segundo, com 31,71%, e Ciro Gomes, do PPS, em terceiro, com 10,97%.

Para explicar o cenário, é importante lembrar que naquele período o Brasil enfrentava uma crise financeira internacional: em agosto de 1998, a Rússia decretou moratória sobre parte de sua dívida, causando instabilidade nos mercados globais e dificultando o acesso ao crédito para emergentes. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil perdeu mais de US$ 30 bilhões em reservas internacionais nesse período turbulento. Ainda em 1998, o governo brasileiro negociou um auxílio de US$ 41,5 bilhões com o Fundo Monetário Internacional (FMI), realizado em novembro. Após a eleição, ainda naquele começo de mandato, o real sofreu forte desvalorização e o Banco Central passou a deixar a moeda flutuar livremente, além de implementar medidas de ajuste econômico. Essas circunstâncias justificavam, na visão de FHC, que a prioridade fosse lidar com a crise, o que, segundo ele, justificava sua ausência nos debates públicos.

Já em 2015, com a mudança na legislação eleitoral, o requisito para os debates ficou mais rígido, exigindo representação de pelo menos nove deputados na Câmara dos Deputados para que os candidatos fossem obrigados a participar. Em 2017, essa regra mudou novamente, e atualmente as emissoras são obrigadas a convidar candidatos de partidos com pelo menos cinco parlamentares. Todos os demais podem participar a critério da emissora. Assim como em 1998, a situação de hoje também consegue refletir uma correlação entre decisões estratégicas dos candidatos e o funcionamento do sistema eleitoral, além de um momento político que pode levar os candidatos a optarem por não participar de debates, especialmente em momentos de polarização ou de controle social sobre a abrangência desses encontros.

Por enquanto, a eleição de 2026 chegou ao último dia antes do primeiro turno com apenas um debate oficial realizado até aqui, promovido pela Band em 23 de agosto, sem as duas lideranças de intenção de voto, Lula e Flávio Bolsonaro, que também não participaram de debates na 1998. Ainda não há confirmação se as regras deste ano irão mudar, mas a história indica que, em momentos decisivos, o sistema e as estratégias dos candidatos podem influenciar sua presença ou ausência nesses encontros públicos. A coincidência de os dois momentos — 1998 e 2026 — mostra que, mesmo com diferentes razões, a decisão de não participar de debates acompanha eventos políticos e econômicos que marcam a trajetória das eleições brasileiras.

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O que sabemos?

  • A eleição de 1998 foi a única desde a redemocratização sem debates na TV.
  • Fernando Henrique Cardoso optou por não participar dos debates de 1998.
  • A legislação eleitoral e o momento econômico influenciaram a ausência em 1998.
  • Em 2026, o debate da Globo foi cancelado, com apenas um debate realizado até agora.
  • A legislação de debates mudou ao longo do tempo, fortalecendo a participação de partidos com maior representação parlamentar.

Fontes

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