Aumento alarmante da violência contra mulheres em Gaza devido ao conflito
Relatórios apontam crescimento de casos de violência de gênero, incluindo casamento forçado e precoce
Relatório do UNFPA revela que conflitos intensificaram a vulnerabilidade de mulheres e meninas em Gaza, com aumento de até 123% em casamentos forçados no segundo trimestre de 2023.
Segundo o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), a guerra e a crise humanitária que assolam Gaza têm provocado uma escalada preocupante na violência contra mulheres e meninas. Dados coletados por dez organizações indicam que a situação de vulnerabilidade dessas populações piorou bastante nos últimos anos, especialmente após o início do conflito entre Israel e Hamas em 2023. A crise prolongada, que destruiu partes significativas da infraestrutura local, deixou mais de dois milhões de habitantes vivendo em condições precárias, muitas vezes em acampamentos de tendas ou prédios danificados, sem acesso adequado a serviços básicos.
Segundo a mesma fonte, um relatório elaborado a partir de depoimentos de 230 mulheres que vivem em campos de deslocados na Cidade de Gaza e em Khan Younis mostra que episódios de violência de gênero aumentaram consideravelmente. Uma moradora de uma escola que virou abrigo relatou que vítimas de estupro frequentemente se sentem pressionadas a se casar com seus agressores para evitar escândalos, descrevendo como, muitas vezes, um casamento é celebrado no mesmo dia em que o abuso é descoberto. Ainda de acordo com relatos, uma mulher revelou que, durante um período de fome no ano passado, seu próprio pai entregou sua filha de 14 anos em casamento em troca de alimentos, para que ele pudesse alimentar sua família com os poucos recursos disponíveis.
Segundo a mesma fonte, esses casos de casamento precoce, muitas vezes envolvendo meninas entre 12 e 17 anos, aumentaram 123% no segundo trimestre de 2023 em comparação com os três meses iniciais do ano. Nestor Owomuhangi, representante do UNFPA para a Palestina, afirmou que “as tendências são chocantes”, e destacou que as condições extremas vividas por Gaza “romperam estruturas sociais básicas”. Ele também explicou que a deterioração do sistema social é resultado de décadas de conflito, agravada nos últimos três anos por dezenas de milhares de mortos, destruição em larga escala e deslocamentos frequentes.
Enquanto isso, os mercados de alimentos que voltaram a funcionar enfrentam uma população majoritariamente dependente de doações, e a pobreza extrema continua a piorar. O sistema de saúde e os serviços públicos entraram em colapso em grande parte da região, enquanto os ataques aéreos israelenses continuam a ocorrer apesar de um cessar-fogo parcial. Antes do conflito, a maioria das meninas em Gaza tinha bom desempenho escolar, mas os longos períodos de fechamento das escolas e o medo constante dificultaram a continuidade dos estudos. A situação tornou ainda mais difícil a convivência das crianças com a violência e a insegurança, ampliando o risco de assédio e abuso sexual, especialmente nos ambientes de abrigo, onde a privacidade é quase inexistente.
Em uma sociedade tradicional e conservadora, muitas famílias veem o casamento precoce como uma forma de proteger as meninas e preservar sua reputação, mesmo que isso signifique abrir mão de sua infância e segurança. Ainda não há números oficiais confirmados sobre o aumento desses casos, e o Unfpa adverte que as informações ainda estão em levantamento, mas os sinais de que a situação se agravou parecem claros para quem acompanha a crise humanitária em Gaza.
O que sabemos?
- Relatórios do UNFPA indicam aumento de até 123% em casamentos forçados no segundo trimestre de 2023.
- Depoimentos de 230 mulheres mostram episódios de violência, incluindo estupros e casamentos forçados.
- Casamentos precoces envolvendo meninas entre 12 e 17 anos aumentaram significativamente.
- Condições extremas e destruição aprofundaram a vulnerabilidade de mulheres e meninas em Gaza.
Fontes
- BBC News Brasil imprensa





