Estudo revela impacto da colonização europeia na frequência de incêndios na Austrália
Pesquisadores apontam mudanças no manejo da vegetação e suas consequências atuais
A análise de sedimentos no lago Purghagoolah sugere que práticas tradicionais aborígines ajudavam a controlar incêndios na Austrália, mas a chegada dos europeus alterou esse equilíbrio.
Segundo uma pesquisa publicada na revista Nature, os efeitos das ações do Capitão Cook e da colonização europeia na Austrália podem estar contribuindo para o aumento de incêndios de grandes proporções na região. A investigação, realizada a partir da análise de sedimentos do lago Purghagoolah, no Parque Nacional Croajingolong, em Victoria, revelou que, durante milhares de anos, os povos aborígenes utilizavam queimadas frequentes e de baixa intensidade para gerenciar a vegetação, mantendo o ambiente mais aberto e diversificado.
A equipe de pesquisadores explica que, ao longo de um período de aproximadamente mil anos, as camadas de sedimentos preservadas no lago forneceram informações valiosas sobre a vegetação e os incêndios na área. A análise do pólen revelou que a vegetação era composta por plantas que coexistiam com queimadas regulares, enquanto a presença de carvão indicava a ocorrência de queimadas, cuja intensidade foi avaliada por meio de análises por infravermelho. Esses dados apontam que os aborígenes GunaiKurnai, que habitaram a região, praticavam queimadas de baixa temperatura, que ajudavam a manter a paisagem aberta e ecologicamente equilibrada.
Contudo, o estudo aponta que, a partir do século XIX, a relação com a terra mudou drasticamente. A violência de fronteira e os massacres que expulsaram os indígenas da região coincidiram com uma transformação na vegetação, que se tornou mais densa, especialmente com o crescimento de arbustos e das populações de eucaliptos, que alcançaram níveis quatro vezes superiores ao antes da colonização. Além disso, incêndios mais intensos e de maior calor começaram a prevalecer, dificultando o controle e aumentando a frequência de grandes queimadas.
Os pesquisadores destacam que esse ciclo de incêndios mais fortes e a expansão do combustíveis inflamáveis podem estar alimentando uma situação de risco crescente, onde as queimadas geram mais vegetação que, em seguida, serve de combustível para novos incêndios. Ainda que o impacto das mudanças climáticas seja considerado relevante — pois condições mais quentes e secas favorecem incêndios —, os especialistas defendem que a retomada de práticas indígenas de manejo do fogo poderia contribuir para reduzir o volume de material combustível, ajudando a prevenir incêndios mais devastadores. Ainda não há confirmação oficial de que essa mudança nas políticas de manejo do fogo esteja em andamento, mas a discussão se intensifica na Austrália diante do aumento das queimadas de grande escala.
O que sabemos?
- A prática tradicional dos povos aborígenes envolvia queimadas frequentes de baixa intensidade.
- A partir do século XIX, mudanças na relação com a terra levaram ao aumento da densidade de vegetação e de incêndios.
- Eucaliptos, que antes estavam em menor quantidade, passaram a predominar, atingindo níveis quatro vezes superiores ao antes da colonização.
- Incêndios mais quentes e intensos contribuíram para um ciclo de queimadas cada vez mais severas.
Fontes
- Aventuras na História fonte especializada





