Estudo de fragmentos de pinturas murais na Itália aponta aplicação inovadora do azul egípcio em uma técnica pouco comum na Roma antiga, sugerindo estratégias diferentes na arte de decorar.
Arqueólogos que atuam no norte da Itália fizeram uma descoberta inusitada ao examinarem fragmentos de muralhas de uma antiga vila romana localizada em Friuli-Venezia Giulia. Segundo informações divulgadas pelo portal Archaeology Magazine, os especialistas identificaram o uso incomum do pigmento azul egípcio, que foi misturado na argamassa de cal antes de sua aplicação, uma técnica diferente da usual na Roma antiga. Os vestígios, encontrados na Villa de Torre di Pordenone, mostram representações de animais marinhos, como tainhas, polvos, peixes-escorpião e lagostas, que aparecem sobre um fundo azul. Essa decoração teriam sido parte de um tipo de aquário pintado, recurso já conhecido em sítios como Pompeia, Roma e Brescia, mas cuja técnica de aplicação agora ganha destaque pela forma de uso do pigmento. Ainda de acordo com os pesquisadores, a datação dos fragmentos aponta para o final do século 1 ou a primeira metade do século 2 d.C., quando a técnica de pintura na antiga Roma se consolidava. Para conduzir a análise, os arqueólogos examinaram dez fragmentos em detalhes, utilizando várias técnicas modernas, como microscopia óptica, microscopia eletrônica de varredura, difração de raios X, espectroscopia Raman e fluorescência de raios X. Os testes evidenciaram a presença de cuprorivaíta, o principal cristal responsável pela cor azul do pigmento egípcio. Uma das descobertas mais surpreendentes foi a profundidade de penetração do pigmento na argamassa: partículas azuis foram detectadas a mais de 2 milímetros de profundidade, com concentrações de cobre que atingiam até 3 milímetros dentro do material, indicando que o azul não havia simplesmente penetrado por ação superficial, como acontece em pinturas feitas com a técnica do afresco, onde pigmentos se infiltram somente nas camadas recém-aplicadas. A hipótese mais aceita pelos especialistas é que o azul egípcio tenha sido incorporado à mistura de cal e agregados antes de a argamassa ser aplicada nas paredes, uma estratégia que proporcionaria uma base azul uniforme para a decoração, além de facilitar o trabalho, ao eliminar a necessidade de aplicar o pigmento posteriormente. Essa técnica diferenciada também mostraria uma preocupação maior com a durabilidade e a organização do processo artístico. Outra questão relevante levantada pelos arqueólogos é o alto valor do azul egípcio na época, considerado mais caro do que pigmentos terrestres comuns e representando cerca de 5% da argamassa pigmentada em uma grande área — um gasto expressivo que revela a escolha deliberada por um material exótico e de alta qualidade. Embora o uso do azul egípcio seja conhecido na arte antiga, sua aplicação direta na argamassa de forma a criar uma camada uniforme e profunda é uma prática considerada pouco comum, o que faz a descoberta ser especial e relevante para entender melhor as técnicas artísticas romanas. Ainda não há confirmação oficial ou mais fontes que confirmem integralmente a prática, e a equipe de arqueólogos aguarda análises adicionais para aprofundar essa hipótese, mas a descoberta promete enriquecer o entendimento sobre a inovação técnica na decoração de ambientes públicos e privados na Roma antiga.
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O que sabemos?
✓Fragmentos de mural de vila romana na Itália mostram uso incomum do azul egípcio.
✓Pigmento foi misturado na argamassa de cal, formando uma camada azulada uniforme.
✓Análises indicam penetração do pigmento até 3 mm na argamassa.
✓Datação dos vestígios aponta para final do século 1 ou início do século 2 d.C.
✓Uso do azul egípcio na argamassa sugere estratégia inovadora dos artesãos.