Entregadores na Argentina recorrem a empréstimos por dívidas crescentes
Ciclo de endividamento se aprofunda entre trabalhadores de aplicativos de delivery
Com salários baixos e multas elevadas, entregadores na Argentina têm buscado crédito em fintechs, muitas vezes com juros altos, para cobrir gastos e recuperar bens apreendidos.
Numa cena que reflete a pressão financeira enfrentada por trabalhadores autônomos na Argentina, Albert Quintero, um entregador de 41 anos, revela que, ao ter sua motocicleta apreendida por autoridades de trânsito em Buenos Aires, precisou recorrer a empréstimos digitais para pagar multas e taxas. Segundo ele, a soma para voltar ao trabalho pode chegar a cerca de 140 mil pesos (R$ 459), valor que muitos não conseguem pagar sem recorrer a financiamento de fintechs, cujos juros frequentemente ultrapassam a marca de três dígitos anuais.
De acordo com informações de uma fonte vinculada ao setor, o crescimento do setor de empréstimos por fintechs na Argentina é expressivo, tendo aumentado aproximadamente 20 vezes nos últimos seis ou sete anos, passando de 500 mil operações para mais de 10 milhões de empréstimos individuais. Essa expansão acompanha mudanças na economia local, marcada por inflação elevada, crises de dívida soberana e recessões periódicas, que dificultaram a concessão de crédito convencional por bancos. Com a desaceleração da inflação e sinais de possível estabilização econômica, bancos e plataformas digitais passaram a oferecer mais opções de crédito, embora com condições desfavoráveis para os tomadores.
Segundo uma fonte do setor, quase seis milhões de argentinos encontram-se com mais de 90 dias de atraso nos pagamentos, o que representa cerca de um terço de todos os empréstimos concedidos no país. Dados do Banco Central da Argentina indicam que a inadimplência entre famílias atingiu 12,8% em junho, o maior patamar desde o início da série histórica em 2010, subindo a partir de 2,8% no final de 2023, quando o presidente Javier Milei assumiu o cargo. Ainda não há confirmação oficial sobre a situação exata dos trabalhadores de aplicativos, mas relatos indicam que muitos têm recorrido a empréstimos com juros anuais elevados — plataformas como PedidosYa oferecem crédito com taxas de 131% ao ano, enquanto a carteira digital Personal Pay cobra aproximadamente 170%.
Segundo uma fonte do setor, “há muitos que não têm dinheiro, e por isso acabam se endividando”, o que evidencia o ciclo de vulnerabilidade dos entregadores que dependem de aplicativos para sobreviver. Com o aumento do custo de vida e o clima de incerteza econômica, esses aplicativos de fintechs estão se consolidando como uma importante fonte de crédito para as famílias argentinas, embora a queixa geral seja sobre as altas taxas de juros que dificultam a quitação dos débitos. Apesar de ainda não confirmado oficialmente, essa realidade ajuda a compreender um cenário onde trabalhadores autônomos se veem cada vez mais presos a um ciclo de dívidas, agravando sua vulnerabilidade financeira.
O que sabemos?
- Entregadores na Argentina usam empréstimos de fintechs devido a dívidas crescentes.
- Setor de empréstimos por fintechs cresceu 20 vezes em seis a sete anos.
- A inadimplência de famílias subiu para 12,8% em junho, maior desde 2010.
- Taxas de juros de plataformas como PedidosYa chegam a 131% ao ano, e Personal Pay cobra cerca de 170%.
- Muitos entregadores precisam recorrer a empréstimos para pagar multas e recuperar bens apreendidos.
Fontes
- Folha de S.Paulo imprensa


