Economia

Brasil registra recorde de financiamento de veículos enquanto inadimplência aumenta

Em apuração ?

Compra parcelada de carros atinge maior volume em 15 anos, apesar do crescimento do atraso nos pagamentos

Carros sendo testados em laboratório na fábrica da BYD, em Camaçari (BA)
Imagem: Folha de S.Paulo

O mercado de veículos no Brasil atingiu seu maior volume de financiamentos em 15 anos no mês de agosto, mesmo com o aumento da inadimplência. Dados indicam que mais de 680 mil unidades foram financiadas, enquanto a taxa de atraso nos pagamentos também cresceu a níveis históricos.

Apesar da alta nos juros e da renda das famílias comprometida, o mercado de financiamento de veículos no Brasil chegou, em agosto, ao maior volume em 15 anos. Segundo fonte não oficial, a empresa de dados Trillia, ligada à B3, foram financiadas 683.928 unidades no mês, o que representa o maior número para um mês de agosto desde 2011. Nos oito primeiros meses de 2026, o total de veículos financiados — novos e usados — atingiu 5,136 milhões, um crescimento de 10% em comparação ao mesmo período do ano passado. Além disso, dados do Banco Central revelam que, até julho, R$ 173 bilhões foram destinados por bancos para a compra de veículos, valor que já supera os R$ 150 bilhões registrados em 2025 e 2024 na mesma época.

Contudo, o cenário apresenta um lado preocupante: a inadimplência dos financiamentos também atingiu níveis máximos em anos. De acordo com informações de julho, 6,63% dos contratos de pessoas físicas estavam em atraso por mais de 90 dias, o que não acontecia desde 2012. Para as empresas, essa taxa era de 5,62%, a maior desde 2016, ano marcado pela pior recessão econômica do país. Segundo Renata Herani, CEO da Tecnobank, essa alta na inadimplência deve-se à conjuntura econômica atual, marcada por juros elevados e uma classe média com renda cada vez mais comprometida e endividada. "Apesar de o mercado estar aquecido, ele poderia estar crescendo ainda mais se esse índice de inadimplência não estivesse tão alto. Isso limita a capacidade de os bancos aprovarem novos financiamentos", declarou ela à fonte não oficial.

Especialistas alertam que o aumento da inadimplência também está provocando uma maior cautela no setor financeiro. Cássio Pagliarini, sócio da Bright, afirmou que atualmente os bancos têm dificuldades maiores para aprovar financiamentos de veículos de passeio, devido à maior preocupação com riscos. Ele compara o momento ao de 2012, quando uma forte baixa do IPI — Imposto sobre Produtos Industrializados — e a redução da taxa básica de juros (SELIC) de 11% para 7,25% ao ano incentivaram as vendas, mas também provocaram uma inadimplência que ultrapassou 6%. Naquela época, os veículos mais vendidos eram do segmento popular, como o Volkswagen Gol, cujo preço inicial, naquela época, começava em R$ 27.990, valor equivalente a cerca de R$ 57,5 mil hoje, atualizado pelo IPCA. Hoje, os modelos mais vendidos, como o Volkswagen Polo, custam a partir de R$ 96.690, valor muito superior ao de 2012.

O mercado ainda reconhece que a inadimplência atual impacta as condições de financiamento. Segundo Alexandre Papa, do Santander Financiamentos, a carteira de clientes do banco está se tornando mais resiliente, devido a uma seleção mais rigorosa na concessão de crédito. "Estamos atentos ao perfil de cada cliente para evitar problemas de pagamento futuros", afirmou à fonte não oficial. Ainda assim, a situação levanta dúvidas sobre o ritmo de crescimento do setor automotivo, que, apesar de forte, mostra sinais de desaceleração em relação a anos anteriores, levando em conta o aumento do risco de inadimplência crescente, que parece estar tendo efeito direto na análise de crédito.

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O que sabemos?

  • O Brasil teve o maior volume de financiamentos de veículos em 15 anos em agosto.
  • Foram financiadas cerca de 684 mil unidades em agosto, o maior desde 2011.
  • Nos oito meses de 2026, foram financiados mais de 5,1 milhões de veículos, um aumento de 10%.
  • A inadimplência atingiu o maior patamar desde 2012 para pessoas físicas, com 6,63%.
  • A taxa de inadimplência para empresas também atingiu o nível mais alto desde 2016, em 5,62%.

Fontes

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