Descoberta de mecanismo viral de edição genética pode revolucionar a ciência
Sistema chamado Vipr, dos próprios vírus, pode ser ancestral do Crispr e mais poderoso
Pesquisadores identificaram um novo sistema de defesa viral com potencial para avançar as tecnologias de edição genética. A descoberta sugere uma evolução do sistema Crispr, usado atualmente para tratamentos médicos e melhoramento genético.
Cientistas anunciaram uma descoberta que pode mudar a forma como entendemos a evolução e o uso de ferramentas de edição genética. Segundo um estudo publicado na revista Science, um sistema chamado Vipr, encontrado em vírus, revela-se como um mecanismo ancestral ao Crispr, tecnologia que vem revolucionando a biologia molecular há mais de uma década.
De acordo com o artigo, o Vipr pode ter mais de 4 bilhões de anos e teria se desenvolvido como uma defesa dos próprios vírus contra outros micróbios ou invasores genéticos. Uma das principais vantagens do Vipr seria sua capacidade de reconhecer uma maior variedade de sequências de DNA, permitindo que altere partes maiores do genoma. Além disso, sua molécula é significativamente menor do que as utilizadas no sistema Crispr, o que facilitaria sua introdução nas células para fins de edição genética.
Para o microbiologista Philip Kranzusch, da Universidade Harvard, essa característica torna o Vipr uma ferramenta potencialmente transformadora na engenharia genômica. Segundo ele, “o tamanho incrivelmente pequeno do Vipr faz com que esses sistemas sejam ferramentas transformadoras para a engenharia do DNA”. Ainda na mesma linha, o estudo traz a reflexão de como essa descoberta poderia ampliar as possibilidades do uso de edição genética, por exemplo, em tratamentos médicos ou na agricultura.
Jennifer Doudna, bioquímica que recebeu o Prêmio Nobel de Química em 2020 por sua contribuição ao desenvolvimento do Crispr, também comentou o avanço. Ela explicou que a descoberta levanta questões sobre a origem do sistema Crispr, um mecanismo de defesa que, na verdade, parece ter evoluído de sistemas virais ancestrais. Doudna reforça que “precisamos entender melhor como esses sistemas evoluíram e quais funções eles desempenhavam no passado, pois essa compreensão pode aprimorar o uso atual dessas tecnologias”.
O Crispr, conhecido por cortar DNA com precisão, é composto por proteínas e moléculas de RNA que se ligam aos vírus, neutralizando-os ao destruir suas sequências genéticas. Desde sua descoberta na década de 1990, cientistas têm observado uma crescente quantidade de micróbios que possuem esses sistemas. Estudos apontam que os ancestrais de todos os seres vivos carregavam moléculas de Crispr, evidenciando sua longa história evolutiva. Ainda não há confirmação se o Vipr substituirá ou complementará o Crispr, mas sua estrutura menor e maior capacidade de reconhecimento prometem abrir novas fronteiras na biotecnologia. A pesquisa ainda está em fase inicial, e os autores destacam que mais estudos serão necessários para entender toda a sua potencialidade e aplicação prática.
O que sabemos?
- Sistema Vipr foi descoberto em vírus e pode ser ancestral ao Crispr.
- Vipr tem potencial para reconhecimento de maior variedade de DNA.
- Moléculas do Vipr são menores, facilitando manipulação em células.
- Descoberta sugere evolução do mecanismo de defesa genético.
- Ainda não confirmado se Vipr substituirá o Crispr.
Fontes
- Folha de S.Paulo imprensa





