Ciência

Fundação de Apoio à Pesquisa no Brasil enfrenta crise de financiamento e impacto na formação de pesquisadores

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Aumento no número de bolsas contrasta com cortes na importação de insumos, colocando em xeque o avanço científico nacional

Laboratório de pesquisa com equipamentos tecnológicos
Imagem: Jornal da USP

Dados indicam que, enquanto o número de bolsas cresceu significativamente, o orçamento para pesquisa no Brasil sofre cortes e limitações, dificultando o desenvolvimento de projetos e a formação de pesquisadores qualificados.

Segundo o professor José Eduardo Krieger, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, a Fundação de Apoio à Pesquisa (Fapesp) enfrenta uma crise de financiamento que pode comprometer suas atividades de pesquisa no Brasil. Ele aponta que, em junho de 2026, as despesas com bolsas de estudo representaram 58% do orçamento da fundação, bem acima da média histórica de 35%. Além disso, entre 2023 e 2025, o número de bolsas contratadas cresceu 73%, saltando de 7.610 para 13.180, enquanto os auxílios a projetos aumentaram apenas 3,7%, e as bolsas no exterior cresceram 52%, indicando uma expansão na formação de estudantes, mas uma manutenção limitada de recursos para os próprios projetos de pesquisa.

Segundo a fonte, o aumento expressivo no número de bolsas evidencia a prioridade de formar novos pesquisadores, mas levanta dúvidas sobre a sustentabilidade desse modelo. Krieger questiona o que esses pesquisadores encontrarão ao retornar ao Brasil, diante de uma infraestrutura de pesquisa que não acompanha a ampliação da formação, com falta de reagentes, equipamentos e pessoal técnico adequado. Para ele, não existe pesquisador sem formação, mas também não há pesquisa sem recursos e infraestrutura adequados. História de sucesso internacional, como a do programa Horizon Europe da União Europeia, demonstra que é preciso investir em grupos com meios para produzir conhecimento, algo que o Brasil ainda não consegue garantir, na visão dele.

Na avaliação do professor, o grande desafio do sistema brasileiro está na concentração de recursos na formação de pessoas, principalmente via Capes, que em 2025 destinou cerca de R$ 4,92 bilhões de um orçamento total de R$ 5,73 bilhões à formação e educação, além de outros R$ 4,5 bilhões do CNPq para capacitação e fixação de pesquisadores. Krieger argumenta que esse foco na formação, embora necessário, não pode ser feito às custas do financiamento de projetos de pesquisa, que dependem de recursos mais estáveis e de longo prazo para garantir avanços científicos relevantes.

Outro problema apontado pelo especialista é a dificuldade de importar insumos essenciais à pesquisa devido às cotações federais e limitações na exportação de bens relacionados à ciência. Dados ainda não confirmados oficialmente indicam que a cota federal de isenção para importações de insumos de pesquisa caiu de US$ 400 milhões em 2023 para cerca de US$ 229 milhões em 2025, tendo sido eventualmente ampliada para US$ 354 milhões em agosto, mas atualmente não está disponível. Essa redução eleva os obstáculos para aquisição de reagentes e equipamentos necessários aos laboratórios brasileiros, o que, na prática, pode desacelerar o avanço da pesquisa nacional.

Segundo especialistas, a Universidade de São Paulo e a Fundação de Apoio à Pesquisa poderiam liderar uma resposta mais coerente a esses desafios, devido à forte massa crítica, às boas universidades e a uma estrutura institucional com financiamento constitucional e horizonte de longo prazo. Apesar das boas condições, o sistema de financiamento, que privilegia a formação, parece não estar acompanhado por uma política de recursos para os projetos, o que poderia comprometer o desenvolvimento de pesquisa de ponta no país, uma preocupação compartilhada por profissionais do setor.

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O que sabemos?

  • A fundação de apoio à pesquisa enfrentou aumento de despesas com bolsas que chegaram a representar 58% do seu orçamento em junho de 2026.
  • O número de bolsas contratadas cresceu 73% entre 2023 e 2025, de 7.610 para 13.180.
  • As bolsas no exterior cresceram 52% nesse período.
  • Cortes na cota federal de importação de insumos de pesquisa passaram de US$ 400 milhões em 2023 para cerca de US$ 229 milhões em 2025, com recentes ajustes para aumentar esse limite, mas atualmente sem cota disponível.

Fontes

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