Exploração do conceito de apego nas redes sociais gera debates sobre relacionamentos atuais
Aplicação da teoria do apego na compreensão das mudanças nos relacionamentos amorosos
Nas redes sociais, a expressão 'fase colega de quarto' descreve o afastamento emocional entre casais. A popularidade do tema trouxe à tona discussões sobre a teoria do apego e seu papel na dinâmica moderna.
Nos últimos meses, uma expressão ganhou destaque nas redes sociais brasileiras: 'fase colega de quarto'. Segundo fontes, ela descreve uma fase em que um casal perde a intimidade, deixando de conversar sobre o dia a dia e de se tocar, passando a dividir apenas as tarefas domésticas, como contas, compras e tarefas na cozinha. Essa mudança, muitas vezes, é interpretada como um sinal de crise no relacionamento, gerando discussões e até diagnósticos rápidos baseados na teoria do apego — uma teoria psicológica que explica como os vínculos da infância influenciam os relacionamentos adultos.
A origem dessa teoria remonta ao final da década de 1950, quando o psiquiatra britânico John Bowlby desenvolveu um modelo que relaciona o apego na infância com padrões de comportamento no amor adulto. Segundo ele, a forma como uma pessoa se conecta com seus cuidadores na infância molda suas expectativas e comportamentos na fase adulta. Hoje, esse conceito vem sendo adaptado por influenciadores digitais, principalmente no TikTok, onde termos como "apego ansioso" e "apego evitativo" são usados para rotular comportamentos de parceiros que desaparecem ou se tornam distantes, muitas vezes sem uma compreensão profunda do que realmente significam esses estilos.
Segundo o psicólogo e pesquisador Cristiano Nabuco, autor de um livro sobre o tema, essa popularização é bem-vinda, pois ajuda as pessoas a desenvolverem maior autoconsciência. Em entrevista à CNN Brasil, ele explicou que, na verdade, os comportamentos classificados como evitativos ou ansiosos são resultado de uma arquitetura mental que se forma na infância, e não simples escolhas ou falhas de caracter. Para Nabuco, o problema de aplicar os rótulos de forma superficial é que o comportamento de alguém pode parecer uma caricatura, como um indivíduo frio ou distante, quando na realidade há uma estrutura de pensamento por trás dessa conduta.
Ainda de acordo com o especialista, o que realmente importa é entender que o estilo de apego é uma base que influencia o comportamento, e não uma sentença definitiva. Embora ele acredite que mudar o estilo de apego seja difícil — para muitos, praticamente impossível —, a teoria afirma que ao longo da vida é possível experimentar situações e relacionamentos que desafiem esses padrões. Bowlby usava a analogia de estações de trem, mostrando que relacionamentos podem atenuar comportamentos originais, tornando-os mais funcionais, mesmo sem eliminá-los completamente. Essa visão reforça que mudanças podem acontecer, mas requerem tempo e experiências específicas.
Portanto, o uso da teoria do apego na análise de relacionamentos atuais, especialmente nas redes sociais, ainda não foi confirmado oficialmente como uma ferramenta clínica ou diagnóstico definitivo. Até o momento, ainda não há consenso na comunidade científica sobre a aplicação literal desses conceitos para rotular comportamentos adultos de forma simplificada, mas a discussão traz uma reflexão importante sobre autoconhecimento e padrões em nossas emoções e vínculos afetivos.
O que sabemos?
- Expressão 'fase colega de quarto' descreve afastamento emocional em casais.
- Teoria do apego é originalmente de Bowlby, criada na década de 1950.
- Influenciadores usam conceitos como 'apego evitativo' para rotular comportamentos.
- Especialista afirma que comportamento é consequência de uma arquitetura mental formada na infância.
Fontes
- CNN Brasil imprensa





