Brasil

Retrospectiva do cineasta Alberto Cavalcanti reacende reconhecimento internacional

Em apuração ?

Cinema brasileiro quase ignorado no próprio país ganha destaque em Paris e na retrospectiva na Cinemateca Brasileira

Cena de uma projeção antiga de filme de Cavalcanti na Cinemateca Francesa
Imagem: Folha de S.Paulo

Alberto Cavalcanti, pioneiro do cinema experimental e documentarista de renome, recebe homenagem na França após décadas de invisibilidade no Brasil, onde sua obra permanece pouco conhecida.

Em agosto de 1978, na Cinemateca Francesa, uma retrospectiva do cinema brasileiro revelou o quanto a obra de Alberto Cavalcanti, importante cineasta que viveu grande parte de sua vida na França e Inglaterra, ainda é pouco reconhecida no Brasil. Segundo relato de testemunhas presentes, na última sessão da mostra, a sala quase lotada foi tomada por aplausos de pé ao final de uma das exibições, quando um velhinho, identificado posteriormente como Cavalcanti, virou-se para o público e aplaudiu junto. Essa foi uma das últimas homenagens póstumas ao cineasta, que faleceu em Paris quatro anos depois, em 1982.

Alberto Cavalcanti nasceu no Brasil, mas decidiu viver fora de seu país desde cedo. Estudou arquitetura em Genebra, na Suíça, e logo após formou-se na área antes de migrar para Paris, onde começou sua trajetória no cinema como assistente de Marcel L’Herbier. Sua ligação com a vanguarda francesa do pós-guerra estabeleceu uma marca distinta em sua obra, sendo que seu segundo filme, "Rien que les Heures" (1927), destacou-se por uma poética que valorizava a cidade como um objeto de arte, antecipando conceitos de sinfonias urbanas que viriam a se consolidar nas décadas seguintes.

Durante o início da era sonora, Cavalcanti trabalhou para a Paramount, adaptando filmes hollywoodianos para o francês, num período em que ainda não existiam legendas nem dublagem. Segundo fontes, sua carreira se ampliou ao receber convite do britânico John Grierson para integrar o movimento do documentarismo inglês, que revolucionou o gênero no mundo. Por sua ligação com essa front, trabalhou entre Paris, Londres e posteriormente na Inglaterra, colaborando com nomes como Michael Balcon, conhecido por lançar Alfred Hitchcock. Entre suas obras destacadas na fase britânica figuram o documentário "Filme e Realidade" (não confirmado oficialmente) e o episódio de "Dead of Night" (1943), considerado um dos filmes britânicos mais bem-sucedidos da época.

Após a Segunda Guerra Mundial, Cavalcanti foi convidado por Franco Zampari para montar o estúdio da recém-criada Companhia Vera Cruz, pioneira no Brasil na produção cinematográfica profissional. Ainda segundo informações da Folha de S.Paulo, ele retornou ao Brasil após mais de trinta anos de carreira internacional para montar os primeiros estúdios do país — em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo — e contratar uma equipe de profissionais diversos, vindos de diferentes países, para formar uma estrutura de produção moderna. Essa operação visava justamente combater a narrativa de que o Brasil não possuía profissionais capazes na área, uma visão que Cavalcanti, segundo a referida fonte, discordava. Ele tinha, contudo, uma ambição de transferir sua experiência global para impulsionar o cinema nacional, embora sua obra tenha permanecido bastante desconhecida por aqui até hoje.

Ainda não há confirmação oficial se Cavalcanti foi homenageado na Cinemateca Francesa, ou se a plateia de 1978 foi realmente a última homenagem a ele, como relatado por testemunhas. O clube e a instituição ainda não se pronunciaram oficialmente sobre o episódio. A retrospectiva que ocorre na Cinemateca Brasileira, que começou em setembro, busca resgatar a filmografia de um cineasta cuja influência e legado, apesar de pouco reconhecidos localmente, são celebrados na Europa. O cinema de Cavalcanti, que tentou sempre ser enterrado em Paris, permanece uma ponte entre as vanguardas europeias e a busca brasileira por um cinema de expressão inovadora.

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O que sabemos?

  • Alberto Cavalcanti viveu a maior parte de sua vida na França e Inglaterra.
  • Foi homenageado na França em 1978, pouco antes de falecer.
  • Formado arquiteto, começou no cinema como assistente de Marcel L’Herbier.
  • Contribuiu com o movimento do documentarismo inglês e trabalhou na Inglaterra.
  • Após a guerra, retornou ao Brasil para montar estúdios na região de São Paulo.

Fontes

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