Acervo do TJMG revela documentos inéditos sobre resistência negra e escravidão em Minas Gerais
Plantão histórico do tribunal disponibiliza 600 ações judiciais e registros de disputas por liberdade desde o século XVIII
O Tribunal de Justiça de Minas Gerais disponibilizou um acervo com cerca de 600 ações judiciais relacionadas à história negra, incluindo registros de resistência, violência e buscas por liberdade. Os documentos, que remontam ao século XVIII, ajudam a reconstruir histórias pouco conhecidas de pessoas escravizadas e libertas.
Uma importante iniciativa do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) acaba de tornar acessível ao público um vasto acervo de documentos históricos ligados à escravidão e à resistência negra. Segundo a própria fonte, esse acervo reúne entre 600 mil e 800 mil registrosde processos de diversas regiões do estado, com documentos que datam desde 1736 até a primeira metade do século XX. Dentre esses registros, há ações judiciais envolvendo buscas por liberdade, disputas para a manutenção da escravidão, além de documentos que revelam relações familiares, condições de vida e métodos de resistência adotados por pessoas negras ao longo dos anos.
Segundo a Escola Judicial Desembargador Edésio Fernandes (EJEF), vinculada ao TJMG, a organização dessas fontes tem o objetivo de dar visibilidade a personagens e histórias que por muito tempo ficaram marginalizadas das narrativas tradicionais. A iniciativa, que já disponibilizou cerca de 600 ações judiciais de diferentes regiões de Minas Gerais, também busca ampliar o acesso a documentos que investigam uma face frequentemente esquecida do Brasil Império, como o tratamento dado às crianças de famílias escravizadas. Casos que envolvem exploração infantil, condições de violência e lutas por direitos ficam evidentes nesses registros históricos.
Um dos exemplos mais emblemáticos vem de processos datados de 1874 em Dores do Indaiá, onde um tutor solicitou cancelamento de um contrato de soldada de Epifânio, alegando que o menino trabalhava de “má vontade”. Em Baependi, uma ação de 1880 relatou o abandono de uma criança sem alimentação, enquanto em Ubá, documentos de 1880 detalham agressões físicas e trabalho excessivo de Clemente. Já na véspera da abolição em 1888, a guarda de Evaristo e Fidelis, filhos de mulheres escravizadas, foi tema de disputa judicial, envolvendo argumentos de que as mães não eram consideradas aptas para cuidar deles. Esses exemplos mostram não apenas a brutalidade do sistema escravocrata, mas também a coragem de crianças, jovens e adultos lutando por seus direitos na justiça da época.
Segundo ainda a fonte, a leitura e interpretação desses documentos exigem conhecimento de paleografia — a ciência que estuda escritas antigas — devido às caligrafias e formalidades dos textos originais. Além disso, o acervo é fundamental para pesquisadores e estudiosos que desejam compreender as relações familiares, estratégias de resistência e o funcionamento das redes de apoio entre as comunidades negras e quilombolas ao longo da história mineira.
Embora ainda não confirmado oficialmente por outras fontes, essa iniciativa se apresenta como uma valiosa contribuição para o resgate da memória social, enriquecendo o entendimento sobre um período difícil da história do Brasil e valorizando as ações de pessoas negras que resistiram à opressão. O projeto, que continua em desenvolvimento, promete revelar uma parte importante do passado que, por muito tempo, permaneceu oculto, ajudando a construir um panorama mais completo da trajetória de luta por liberdade e dignidade no estado de Minas Gerais.
O que sabemos?
- Acervo do TJMG contém entre 600 mil e 800 mil documentos.
- Documentos datam de 1736 até a primeira metade do século XX.
- Projeto disponibilizou 600 ações judiciais relacionadas à história negra.
- Entre os registros, há processos de busca por liberdade e conflitos relacionados à escravidão.
- Casos de exploração infantil, violência e resistência aparecem nos processos históricos.
Fontes
- CNN Brasil imprensa





