Tecnologia

Desigualdade na inclusão digital impulsionada pela inteligência artificial no Brasil

Em apuração ?

Dados apontam que o acesso e a habilidade influenciam a distribuição dos benefícios da tecnologia

Ilustração representando pessoas usando tecnologia digital e IA em diferentes contextos sociais
Imagem: Olhar Digital

Estudos mostram que, no Brasil, a desigualdade social reflete na adoção da inteligência artificial, destacando a necessidade de ampliar a inclusão digital por meio de educação e regulação.

Segundo uma análise recente baseada na TIC Domicílios 2025, a inteligência artificial (IA) tem potencial para ser uma poderosa ferramenta de redução de desigualdades nesta geração. Entretanto, no Brasil, essa tecnologia ainda reproduz uma antiga divisão social, pois seu acesso e uso estão fortemente ligados à renda e ao nível de escolaridade dos indivíduos. De acordo com o estudo, 69% das pessoas da classe A já utilizam IA generativa, enquanto apenas 16% das classes D e E têm esse hábito, revelando uma disparidade que começa antes mesmo do uso da tecnologia.

O mesmo levantamento aponta que entre quem tem até o Ensino Fundamental — muitas vezes com menor acesso às ferramentas digitais — 65% citam a falta de habilidade como uma das principais razões para não utilizarem IA. Essa situação evidencia uma deficiência na inclusão digital, onde o acesso à tecnologia ainda é condicionado por fatores clássicos de desigualdade socioeconômica. Ainda segundo os dados, há evidências de que um uso bem orientado da IA pode diminuir as diferenças — por exemplo, um estudo com 4.867 desenvolvedores mostrou que a produtividade deles aumentou cerca de 26% ao usar uma ferramenta de IA, especialmente entre profissionais menos experientes.

Além disso, experimentos realizados com professores no Peru indicam que a capacitação e o treinamento em IA podem reduzir a desigualdade na educação. Nesse estudo, envolvendo 1.269 docentes de escolas públicas de Lima, professores receberam um dia de treinamento e acompanharam, por oito meses, o uso de IA na elaboração de comandos e na avaliação de respostas. Os resultados mostraram que profissionais com mais anos de carreira tiveram ganhos maiores nessas habilidades, o que contribui para nivelar a qualidade do ensino — uma tarefa importante para democratizar o acesso ao conhecimento.

Na área da saúde, a possibilidade de usar IA também pode fazer a diferença, embora ainda exista uma ausência de políticas específicas. Um ensaio realizado no Paquistão, com 58 médicos, revelou que aqueles que tiveram treinamento com modelos de linguagem da IA atingiram uma taxa de acerto de 71,4% em diagnósticos, contra 42,6% de quem não utilizou a tecnologia. Ainda que o estudo tenha limites, o resultado aponta para o potencial da IA de ampliar o conhecimento e a capacidade dos profissionais em ambientes com recursos limitados. No entanto, há um alerta importante: um experimento no Quênia mostrou que empreendedores de pior desempenho podem ser prejudicados ao receberem assistência de IA, chegando a ficar quase 10% abaixo do esperado, enquanto os mais experientes podem superar seus ganhos em até 15%. Isso demonstra que o uso da tecnologia exige discernimento e formação adequada para evitar que a desigualdade se transfira para a decisão de aplicar ou não as recomendações da máquina.

Por outro lado, aregulamentação de IA na saúde na Europa revela um cenário ainda incompleto: quase dois terços dos países adotaram a tecnologia para diagnóstico, mas apenas uma pequena parcela possui estratégias específicas ou regras claras de responsabilidade por falhas. Assim, a necessidade de estabelecer padrões de qualidade, responsabilidade e capacitação é vista como prioridade para garantir que o avanço tecnológico seja acessível e justo, sem perpetuar vantagens de quem já possui infraestrutura, capital e conhecimento especializado. Bill Gates, uma das vozes mais ouquentes nesse debate, reforça que a escolha por um uso responsável da IA é uma decisão monumental, que pode tanto promover maior equidade quanto aprofundar ainda mais a desigualdade, dependendo de como for conduzida. A tendência, portanto, é que a inteligência artificial já esteja contribuindo para reduzir algumas diferenças, mas também reforça a importância de políticas públicas que promovam acesso amplo, educação contínua e fiscalização eficiente.

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O que sabemos?

  • A inteligência artificial pode ser uma alavanca de igualdade, mas ainda reproduz desigualdades no Brasil.
  • Dados mostram que acesso e habilidade são fatores-chave na inclusão digital com IA.
  • Treinamentos em IA melhoram desempenho de professores e desenvolvedores.
  • Estudos indicam que IA pode ampliar o conhecimento de profissionais na saúde, mas há riscos de desigualdade.
  • Regulação de IA na Europa é incompleta e específicações ainda estão em debate.

Fontes

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