De medo das facções a temor do Estado: o dilema de El Salvador
Especialistas alertam para o aumento de violações de direitos em nome do combate ao crime organizado
El Salvador registra queda nas mortes violentas, mas denúncias indicam que prisões arbitrárias e mortes em detenção aumentam a apreensão sobre os limites do poder estatal.
Em El Salvador, a sensação de segurança em meio a uma significativa redução nos homicídios tem sido ofuscada pelo medo crescentemente relacionado à atuação do próprio Estado. Uma transição do temor histórico às facções criminosas para o receio de uma máquina pública sem limites tem gerado questionamentos sobre até onde o governo pode ir na guerra contra o crime organizado.
Segundo dados divulgados pelo governo do presidente Nayib Bukele, o país registrou 82 homicídios em todo o território durante o ano de 2025, uma queda drástica se comparada ao cenário de 2015, quando El Salvador apresentou uma das maiores taxas de assassinatos do mundo: 103 casos para cada 100 mil habitantes. Essa redução tem sido anunciada como uma vitória no combate à violência, porém, as estatísticas oficiais não incluem as mortes provocadas pela polícia, os atentados dentro dos presídios ou os corpos encontrados em valas clandestinas.
Organizações de direitos humanos vêm denunciando que mais de 500 mortes aconteceram dentro das prisões sob responsabilidade do Estado, muitas delas antes mesmo que os detentos fossem julgados culpados ou inocentes. Essa revelação aponta para uma possível crise humanitária oculta, marcada por desaparecimentos e prisões arbitrárias, que são frequentemente justificadas pelas autoridades como consequências inevitáveis da ofensiva contra o crime organizado.
A doutora em ciência da informação e jornalista, autora de "Quando me Descobri Negra", destaca o paradoxo presente nessa narrativa: "Quem não deve, não teme" é uma frase comumente usada para defender medidas autoritárias, mas dificilmente endureceria a opinião daqueles que teriam um familiar levado à prisão sem motivo justificável. Ela questiona: "Quem nos protege da violência do próprio Estado?" e lembra da época do regime militar no Brasil para mostrar como a retórica pode desconsiderar o impacto real sobre direitos e liberdades individuais.
O debate sobre o limite do poder estatal é crucial porque a função do Estado moderno é justamente garantir proteção por meio da violência legítima, mas não permitir que esta violência seja usada de forma arbitrária contra os cidadãos. Em El Salvador, o medo hoje não é apenas das facções criminosas, mas também da repressão desmedida do Estado, que pode silenciar inocentes e ampliar o ciclo de violências.
O que sabemos?
- El Salvador teve uma queda significativa na taxa oficial de homicídios entre 2015 e 2025.
- O governo de Nayib Bukele reporta 82 homicídios em 2025 no país.
- Organizações de direitos humanos denunciam mais de 500 mortes em prisões sob responsabilidade do Estado.
- Desaparecimentos e prisões arbitrárias são apontados como efeitos da ação estatal contra o crime organizado.
O que ainda não foi confirmado?
- Denúncias específicas divulgadas apenas pela Folha de S.Paulo, aguardando mais fontes.
Fontes
- Folha de S.Paulo imprensa


