Família luta há décadas por justiça após tragédia familiar em Jaboatão dos Guararapes
Caso de feminicídio e tentativa de homicídio marcou gerações na região metropolitana do Recife
Zaldo Just Neto, vítima de atentado pelo próprio pai quando tinha 2 anos e 8 meses, e sua família, enfrentam uma longa batalha judicial que durou mais de duas décadas para chegar a uma condenação. A história revela o impacto de uma violência que ainda reverbera na sociedade.
Numa noite de abril de 1989, em Jaboatão dos Guararapes, na região metropolitana do Recife, uma tragédia marcaria a vida de uma família para sempre. Segundo relato de uma fonte ligada ao caso, a então jovem Maristela, de 25 anos, foi brutalmente assassinada pelo próprio marido, que também tentou matar seus filhos e um tio com tiros de arma de fogo. Entre as vítimas, estavam o filho mais novo, Zaldo Just Neto, na época com apenas 2 anos e 8 meses, e sua irmã mais velha, além do próprio tio e da mãe. Os disparos atingiram diferentes partes do corpo, com impacto particular na cabeça de Maristela, e deixaram marcas permanentes na vida de Zaldo. Ainda segundo a mesma fonte, o pai, José Ramos Lopes Neto, foi responsável pelos crimes após não aceitar o fim do relacionamento com Maristela, optando por trancarse dentro do quarto dos ex-sogros na tentativa de consumar o feminicídio e as tentativas de homicídio.
Hoje, Zaldo, aos 40 anos, revela que ainda sente as sequelas daquela noite que marcou o que ele chama de uma 'vida com deficiência física na parte esquerda do corpo' devido a um tiro disparado pelo próprio pai. Em entrevista à BBC News Brasil, ele afirmou que 'ficou órfão da minha mãe, consequentemente do meu pai. Tornei-me uma pessoa com deficiência física por conta daquele que era para cuidar de mim, mas tentou me assassinar'. Ainda segundo ele, a memória do dia é vaga, mas as consequências permanecem. O caso, que se tornou um símbolo de feminicídio em Pernambuco, demorou mais de duas décadas para ser resolvido na Justiça. A condenação de José Ramos Lopes Neto só veio em 2010, após 21 anos do crime, e a prisão, que inicialmente parecia distante, só ocorreu em 2012, dois anos depois.
Desde então, Zaldo e sua irmã Nathália têm liderado uma mobilização para manter vivo o caso, participando de protestos, publicando blogs e concedendo entrevistas. O objetivo, segundo eles, é não deixar o crime cair no esquecimento e conscientizar a sociedade sobre a gravidade do feminicídio e a demora na Justiça brasileira. Recentemente, Zaldo lançou o livro 'Além das Cicatrizes', publicado com apoio da Cepe Editora, no qual revisita a tragédia ao mesmo tempo em que reflete sobre os traumas permanentes em sua vida e na de outros familiares de vítimas de violência. Ele afirma que 'a sociedade ignora o impacto geracional desse tipo de crime', destacando que, desde o assassinato da sua mãe, se passaram pelo menos 37 anos, e os números de feminicídios só aumentam. O avanço mais recente no combate à violência doméstica foi a celebração, em agosto, dos 20 anos da Lei Maria da Penha, que trouxe mudanças legais e de percepção social sobre esse tipo de violência.
Segundo dados do Ministério da Justiça, de janeiro a junho deste ano, o número de medidas protetivas relacionadas à lei atingiu o recorde de 337 mil, marca considerada a maior da história. Apesar das conquistas legais, a tragédia de Maristela ainda representa uma realidade dura: casos como o dela continuam a gerar órfãos diariamente, como reforça Zaldo. Dados do Anuário da Segurança Pública divulgado em julho revelam que os feminicídios no Brasil bateram recorde em 2025, reforçando a urgência de medidas eficazes contra a violência de gênero. Ainda não há confirmação oficial de mudanças na legislação ou ações específicas relacionadas ao caso de Maristela, mas a história continua a sensibilizar e mobilizar a sociedade brasileira diante de um problema que, lamentavelmente, persiste. Enquanto isso, Zaldo segue sua luta por Justiça e pela conscientização sobre o impacto irreversível de crimes de feminicídio na vida das famílias e na sociedade como um todo.
O que sabemos?
- Zaldo Just Neto tinha 2 anos e 8 meses na época do crime (abril de 1989).
- O pai, José Ramos Lopes Neto, matou a mãe, Maristela, e tentou homicídios contra os filhos e um tio.
- O crime ocorreu em Jaboatão dos Guararapes, Grande Recife.
- A condenação do pai ocorreu em 2010, e ele foi preso em 2012.
- Zaldo lançou um livro em que reflete sobre seu trauma e luta por justiça.
Fontes
- BBC News Brasil imprensa




