O medo nas farmácias: a onda de assaltos por medicamentos emagrecedores em São Paulo
Funcionários relatam trauma e insegurança após crescimento de roubos que já causaram morte
Em São Paulo, funcionários de farmácias vivem em estado de alerta após quatro assaltos em 10 dias em busca de canetas emagrecedoras, como o Mounjaro, que podem custar mais de R$ 1,4 mil. A tragédia de uma farmacêutica morta durante um desses assaltos escancara o drama vivido por quem trabalha nesse setor.
Uma sequência de quatro assaltos em apenas 10 dias em farmácias da Zona Norte de São Paulo expôs um problema que afeta cada vez mais os trabalhadores do comércio farmacêutico. Os ladrões têm mirado principalmente em canetas emagrecedoras, medicamentos caros e procurados por seus efeitos rápidos na perda de peso. O drama foi elevado à tragédia em fevereiro, quando a farmacêutica Karina Ribeiro, de 38 anos, foi morta a tiros durante um roubo a uma unidade da rede Drogaria São Paulo, enquanto atendia no turno da madrugada.
Segundo Humberto Maciel, atendente de 26 anos que trabalhava na mesma farmácia, apenas ele e Karina estavam no local quando dois homens anunciaram o assalto com o objetivo de roubar essas canetas. Do lado de fora, havia dois clientes, um deles um policial que tentou reagir. Foi neste momento que Karina foi atingida pelos disparos. “Eu corri e me escondi atrás do balcão. Quando virei, só vi a Karina no chão”, relembra Humberto. O impacto psicológico desse episódio é profundo e marca a vida dos funcionários, que já enfrentavam uma onda crescente de violência.
De acordo com Humberto, que já contabilizava 12 assaltos em pouco mais de um ano e meio trabalhando no turno da madrugada em uma farmácia 24 horas, o medo tomou conta. Ele relata que esse cenário desencadeou crises frequentes de ansiedade e o início de uma depressão, além de sintomas de estresse pós-traumático após o assalto que resultou na morte da colega, quando também levou uma coronhada com revólver. “Trabalhar em farmácia era uma coisa que eu gostava de fazer, pensei até em fazer um curso de Farmácia. Mas perdi totalmente a vontade e, agora, eu não sei o que eu quero fazer da minha vida”, confessa.
Especialistas e órgãos ligados a farmácias têm alertado para a dimensão do problema. No primeiro semestre de 2026, a cidade de São Paulo registrou 439 roubos a farmácias, um número que evidencia a gravidade da situação. O Conselho Regional de Farmácia de São Paulo (CRF-SP) tem cobrado providências das forças policiais e discutido a necessidade de melhor proteção para lojas 24 horas para conter essa escalada de violência.
Medicamentos como o Mounjaro, um dos principais alvos dos ladrões, são comercializados a partir de R$ 1,4 mil a unidade na dosagem mais baixa. Essa alta procura, consequência da promessa de emagrecimento rápido e eficaz, tornou as canetas emagrecedoras um produto valioso para criminosos que ignoram os caixas e partem diretamente para os refrigeradores onde esses medicamentos são guardados.
O medo e os traumas gerados por essa série de assaltos estão levando funcionários a buscar na Justiça a rescisão dos contratos de trabalho, revelando o efeito perverso desse tipo de violência sobre a saúde mental e o mercado de trabalho no setor farmacêutico. A história de Karina e o relato de Humberto escancaram um problema grave que vai além do prejuízo material, atingindo diretamente a vida e a segurança dos que trabalham nas farmácias.
O que sabemos?
- Em fevereiro, a farmacêutica Karina Ribeiro, 38 anos, foi morta durante assalto em farmácia da Zona Norte de São Paulo.
- Humberto Maciel, 26, atendente da mesma farmácia, vive com traumas, crises de ansiedade e depressão após 12 assaltos em 1,5 ano.
- Medicamentos como o Mounjaro, que custam a partir de R$ 1,4 mil, tornaram-se alvo preferencial dos criminosos.
- De janeiro a junho de 2026, São Paulo registrou 439 roubos a farmácias, segundo dados locais.
Fontes
- Folha de S.Paulo imprensa
- BBC News Brasil imprensa
- G1 imprensa





