Aumento do uso da rota marítima do Ártico impulsionado por mudanças globais e geopoliticas
Expansão das navegações pelo gelo em meio a tensões internacionais e clima em transformação
As rotas marítimas do Ártico estão em alta, com recordes de tráfego e novas oportunidades de transporte, motivadas pelo derretimento do gelo e por tensões geopolíticas internacionais.
Segundo informações da Lloyd’s List Intelligence, o transporte marítimo pelo Ártico atingiu níveis inéditos em março passado, com 133 travessias, número mais de quatro vezes maior do que o registrado em 2022. O aumento é atribuído, principalmente, ao derretimento do gelo no inverno e à busca por rotas alternativas às tradicionais, diante de interrupções no Oriente Médio e no mar Vermelho. Ainda de acordo com a fonte, quase metade dessas viagens foi realizada por navios com bandeira russa, enquanto embarcações chinesas também passaram a utilizar a rota com mais frequência, buscando uma alternativa mais rápida e econômica para chegar aos mercados europeus.
A diretora de inteligência marítima da Lloyd’s List, Bridget Diakun, destacou que esse crescimento mostra uma tendência de evolução na utilização dessas rotas em função da busca por alternativas que apresentem menor risco de interrupções devido às tensões políticas. Ela citou como exemplo o navio porta-contêineres chinês Dubai Tower, que, em setembro, viajou de Qingdao até Felixstowe pelo Ártico, reduzindo o tempo de viagem para 24 dias — contra os mais de 40 dias pela rota do canal de Suez ou pelo cabo da Boa Esperança. Outro navio similar partiu de Ningbo com destino ao mesmo porto britânico na mesma data.
O mês de setembro é tradicionalmente o de maior movimento nas rotas do Ártico, pois, nesta época, o gelo atinge seu nível mais baixo, permitindo a passagem de embarcações sem capacidade de navegar em meio ao gelo. Pesquisas recentes, conduzidas pela Universidade de Southampton, indicam que 2025 apresentou a maior redução anual do gelo marinho desde o início dos registros por satélite, mantendo níveis históricos baixos. Essa disminuição do gelo reforça a atratividade da rota para diversas embarcações, incluindo petroleiros e navios de gás natural liquefeito, que também passaram a aproveitar esse caminho para chegar às plataformas russas, como Yamal e Arctic LNG 2.
Um dado que chama atenção é o crescimento no número de graneleiros — navios que transportam commodities como minério de ferro e grãos — cruzando o Ártico. Em setembro, 29 desses navios utilizaram essa rota, número que sobe em comparação aos 18 de agosto e ao recorde de 12, em setembro de 2022. Além deles, também há um número recorde de petroleiros operando na região, somando-se às embarcações que transportam gás natural liquefeito. A situação é agravada pelas condições no estreito de Bab al-Mandab, no Mar Vermelho, uma passagem estratégica para o petróleo da Arábia Saudita, que se tornou mais importante desde que o Irã restringiu o transporte marítimo pelo estreito de Hormuz, em resposta a ataques dos EUA contra o Irã.
Segundo fontes, a Rússia controla a administração da rota marítima do norte, que é dividida em 28 trechos, cada um com regras específicas relacionadas às condições do gelo. A estatal russa Rosatom é a responsável pela emissão de autorizações para navegação na região, o que demonstra o crescimento da influência do país nesse novo eixo do comércio marítimo internacional. Ainda não há confirmação oficial de todas essas informações, e o governo russo não se pronunciou oficialmente até o momento. A expansão do tráfego pelo Ártico, impulsionada por fatores ambientais e geopolíticos, representa uma mudança significativa no cenário de transporte marítimo mundial, com possíveis implicações para o comércio global e para a política internacional.
O que sabemos?
- O transporte marítimo pelo Ártico atingiu 133 travessias em março, mais de quatro vezes o volume de 2022.
- Quase metade dessas viagens foi feita por navios russos.
- Navios chineses também passaram a usar a rota, buscando alternativas para o transporte ao redor do continente.
- Desmatamento do gelo marinho, segundo pesquisadores, está no nível mais baixo desde o início das medições por satélite.
- A rota reduz o tempo de viagem de Qingdao a Felixstowe de 40+ para 24 dias.
Fontes
- Folha de S.Paulo imprensa





