Poluição de fuligem coloca em risco as geleiras do Himalaia, indica estudo
Camada escura de poluição acelera o derretimento de uma das maiores reservas de gelo do planeta
Relatório aponta que resíduos de expurgo de veículos, usinas e fábricas podem ter responsabilidade por até um terço do derretimento de geleiras no Himalaia, afetando o equilíbrio ambiental da região.
Segundo uma publicação do New York Times, a fuligem — partículas de carbono resultantes da queima de combustíveis fósseis — já é responsável por até um terço do derretimento das geleiras do Himalaia. Essas montanhas, que abrigam milhares de geleiras, estão cada vez mais cobertas por resíduos de exaustão de carros, usinas de carvão e fábricas, o que acelera o degelo dessas formações de gelo. A camada escura absorve mais calor solar, diminuindo o esforço natural de reflexão da neve, conhecido como efeito albedo, que normalmente reflete até 90% da luz solar.
De acordo com Marco Tedesco, professor de geofísica do Observatório Terrestre Lamont-Doherty, da Universidade Columbia, essa diminuição na refletividade das geleiras causa um impacto enorme, especialmente à medida que elas se tornam mais finas. Estudos citados pelo mesmo autor indicam que o carbono negro do Sul da Ásia, liberado na queima de combustíveis, contribuiu de forma significativa para a perda de massa glacial no Himalaia entre 2007 e 2016. Além disso, uma pesquisa com satélites, conduzida ao longo de seis anos por estudiosos da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, mostrou como a fuligem e poeira mineral de áreas industriais no Paquistão viajam até as altitudes elevadas do Himalaia, escurecendo a superfície das geleiras.
Especialistas alertam que esse acúmulo de resíduos pode levar a perdas ainda maiores no futuro, caso a poluição continue sem controle. Abira Sengupta, pesquisadora da Universidade de Otago, afirmou ao New York Times que “se a poluição persistir, podemos notar cada vez mais perda de gelo, além do risco de mais enchentes no Nepal”,. A fuligem, ao prender calor na atmosfera e sobre as montanhas, também interfere na formação de nuvens e na ocorrência de nevascas, essenciais para o rejuvenescimento das geleiras. Como explica Aashutosh Paudel, da Universidade Tribhuvan, no Nepal, “quando essa camada escura começa a absorver calor, ela derrete a superfície ao redor, revelando camadas antigas de poeira presa no gelo, o que acelera o ciclo de derretimento”.
Dados da Organização das Nações Unidas indicam que as geleiras das montanhas nepalesas encolheram um terço em 30 anos, aumentando sua fragilidade. Pesquisas apontam que, se o aquecimento global persistir, a cobertura glacial do Himalaia pode chegar à metade até o final do século, mesmo em cenários de contenção de aquecimento a 2°C. O especialista Levan Tielidze, da Universidade Monash, na Austrália, reforça que o Himalaia é um sistema dinâmico, com interação de geleiras, neve, permafrost e encostas, e que os riscos de desabamentos e rompimentos de lagos glaciais aumentam, complicando ainda mais a situação. Segundo o cientista Dipesh Chapagain, a frequência de enchentes causadas pelo rompimento de lagos glaciais aumentou cinco vezes por década desde os anos 1950, sendo que o monitoramento de eventos no Alpes suíços, por exemplo, conseguiu evitar tragédias, como a de 2025, quando uma geleira virou uma vila, mas matou apenas uma pessoa devido a um sistema de evacuação eficiente. No entanto, no Himalaia, a ausência de sistemas de alerta precoce torna esses riscos ainda mais perigosos, uma preocupação que tem sido discutida por especialistas que defendem o uso de satélites e tecnologia de detecção automática para tentar minimizar os prejuízos.
O que sabemos?
- Fuligem é responsável por até um terço do derretimento das geleiras do Himalaia.
- Camadas de poluição escurecem as geleiras, aumentando a absorção de calor e acelerando o derretimento.
- Estudos indicam que a poluição proveniente do Sul da Ásia contribui significativamente para a perda de gelo.
- A redução das geleiras aumenta riscos de enchentes e altera o clima local.
- A ausência de sistemas de alerta precoce no Himalaia agrava os riscos de desastres.
Fontes
- Olhar Digital fonte especializada


