Documentário revela trajetória de Nydia Licia, dama do teatro brasileiro
Celebrando o centenário da atriz, produção destaca sua carreira e impacto cultural
Nydia Licia, nascida em 1926 na Itália, fugiu do fascismo ainda criança e construiu uma marcante trajetória no teatro e na televisão brasileira, conforme documentário inédito da TV Cultura.
Na quarta-feira à noite, foi ao ar o documentário inédito "Nydia Licia - O Espetáculo Continua", produzido pela TV Cultura, que celebra os 100 anos da atriz e figura emblemática do teatro brasileiro. Segundo a própria atriz, que participou do filme com depoimentos, ela nasceu em Trieste em 30 de abril de 1926 e, aos 13 anos, já tinha assistido a mais de 30 óperas devido ao ambiente cultural de sua família judaica, composta por um pai médico e professor universitário e uma mãe pianista formada em ciências musicais. Como ela conta, na época, o fascismo ameaçava sua família na Itália. "Estávamos no tempo do fascismo. De repente, eles perderam os empregos. Meu pai disse: vamos embora", revela, descrevendo a decisão de fugir para o Brasil.
Ao chegar em São Paulo, ela relata que sua impressão inicial foi positiva, afirmando que em apenas dois meses já falava português. Ainda adolescente, Licia estudou música e dança na Itália e, no Brasil, soube que Pietro Maria Bardi, fundador do Museu de Arte de São Paulo (Masp), havia sido convidado por Assis Chateaubriand para montar o museu na cidade. Impressionada com a oportunidade, a jovem se apresentou e foi admitida como assistente de Bardi, inicialmente na sede dos Diários Associados, no centro de São Paulo.
Foi na proximidade do Masp com a livraria Jaraguá, dirigida por Alfredo Mesquita — fundador de um grupo de teatro amador — que Nydia Licia descobriu sua vocação para o palco. Segundo o documentário, ela foi escolhida para interpretar Laura Wingfield em "À Margem da Vida", de Tennessee Williams, devido a sua aparência loira e cabelos longos. Sua carreira teatral se consolidou no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), fundado por Franco Zampari na região da Bexiga. Durante os anos no TBC, ela conviveu com nomes icônicos do teatro brasileiro como Cacilda Becker, Walmor Chagas, Adolfo Celi, Cleyde Yáconis e Paulo Autran.
Em 1953, Licia deixou o TBC ao lado do ator Sérgio Cardoso, seu então marido, para se dedicar a uma temporada na Companhia Dramática Nacional, no Rio de Janeiro. Segundo a filha da atriz, Sýlvia Cardoso Leão, o teatro ainda era visto como uma atividade paralela na época, uma atividade de passatempo. O documentário também resgata detalhes históricos do teatro profissional em São Paulo, ressaltando como grupos amadores se consolidaram sob a influência de nomes europeus como Ziembinski e Adolfo Celi. Ainda, ele oferece vislumbres divertidos dos bastidores, incluindo a lembrança de Ziembinski dormindo durante as suas próprias atuações, o que demonstra o clima de camaradagem e a tradição europeia que permeava o teatro na época.
O que sabemos?
- Nydia Licia nasceu em Trieste em 1926
- Fugiu da Itália com 13 anos devido ao fascismo
- Chegou ao Brasil e aprendeu português em dois meses
- Trabalhou na montagem do Museu de Arte de São Paulo (Masp)
- Atuou no Teatro Brasileiro de Comédia até 1953
Fontes
- Folha de S.Paulo imprensa




