Pesquisa revela desigualdades para mulheres negras em aplicativos de relacionamento
Estudo da Unesp aponta que Tinder e Badoo reproduzem preconceitos presentes na sociedade
A socióloga Maria Chaves Jardim mostra que, apesar da promessa de democratizar o acesso ao amor, aplicativos de relacionamento reforçam padrões estéticos e sociais que tornam mulheres negras mais vulneráveis no mercado afetivo digital.
Na era dos encontros digitais, aplicativos como Tinder e Badoo prometem facilitar o acesso ao amor e às relações afetivas. No entanto, pesquisas recentes indicam que esses espaços não são tão neutros quanto parecem. Segundo a socióloga Maria Chaves Jardim, professora da Unesp de Araraquara, os aplicativos replicam — e até acentuam — as desigualdades sociais, especialmente em relação às mulheres negras, consideradas as mais vulneráveis no chamado mercado do afeto.
Desde 2017, Jardim coordena pesquisas no Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Emoções, Sociedade, Poder, Organização e Mercado (Nespom), investigando como as plataformas digitais reproduzem preconceitos em vez de combatê-los. Em sua etnografia digital, financiada pela FAPESP, a pesquisadora interagiu com mais de cem homens nos aplicativos Tinder e Badoo, realizou 15 entrevistas presenciais e participou de um grupo virtual fechado em que mulheres discutem suas experiências e estratégias para se destacarem no ambiente online.
Os resultados são reveladores: longe de democratizar o acesso afetivo, os aplicativos reforçam constrangimentos sociais que fazem com que determinados perfis sejam privilegiados, enquanto outros permanecem invisíveis. “Não há aqui uma mágica, um cupido”, afirmou Jardim. Padrões estéticos e preconceitos influenciam diretamente quem é considerado desejável e quem é excluído, especialmente as mulheres negras, que enfrentam barreiras estruturais tanto no mundo físico quanto no digital.
A análise da socióloga parte da sociologia econômica, que entende o mercado — inclusive o mercado do afeto — como um espaço moldado por valores e relações sociais, e não como um ambiente neutro ou puramente econômico. Isso significa que os algoritmos e as interações nos aplicativos talvez reflitam preconceitos históricos e sociais, tornando a experiência das mulheres negras mais difícil e dolorosa.
Este estudo chega em um momento em que a discussão sobre diversidade e inclusão ganha cada vez mais espaço, indicando que o desafio das desigualdades digitais vai muito além do acesso técnico às plataformas. O levantamento de Jardim aponta para a necessidade de uma reflexão profunda sobre a estrutura social por trás dos cliques e das curtidas, revelando que o afeto e o amor não estão separados das desigualdades que permeiam o cotidiano.
O que sabemos?
- Estudo da socióloga Maria Chaves Jardim analisa desigualdades em aplicativos de relacionamento.
- Pesquisa é baseada em etnografia digital envolvendo Tinder e Badoo desde 2017.
- Mulheres negras são apontadas como as mais vulneráveis no mercado afetivo digital.
- Padrões estéticos e preconceitos determinam quem é visto como desejável nas plataformas.
O que ainda não foi confirmado?
- Informação divulgada apenas pela Revista Pesquisa FAPESP; aguardando outras fontes.
Fontes
- Revista Pesquisa FAPESP fonte oficial



