Ciência

Narvais equipados revelam corrente quente sob geleiras da Groenlândia

Em apuração ?

Sensores colocados em narvais mostram avanço de águas mais quentes do Atlântico, indicando risco ao maior sistema de fiordes do Ártico

Narval nadando próximo a camadas de gelo no Ártico
Imagem: ScienceAlert

Cientistas utilizaram narvais como mensageiros dos mares gelados da Groenlândia para detectar a infiltração de correntes oceânicas mais quentes que ameaçam a estabilidade das geleiras ao longo da costa leste da ilha

Para explorar as águas congeladas e remotas da Groenlândia, onde humanos enfrentam dificuldades até mesmo em barcos, pesquisadores adotaram uma estratégia inusitada: equipar narvais com sensores para monitorar a temperatura e os movimentos do oceano. Segundo um estudo publicado recentemente na revista Science Advances, os narvais – cetáceos conhecidos pelos seus longos dentes que parecem chifres de unicórnio – vêm auxiliando cientistas a compreender melhor como as águas do Atlântico, aquecidas pelos gases de efeito estufa, estão infiltrando-se sob as imensas geleiras da ilha.

O campo de estudo inclui o Scoresby Sound, o maior sistema de fiordes do mundo, onde a navegação humana é limitada por densas camadas de gelo marinho e icebergs. De acordo com o biólogo marinho Mads Peter Heide-Jørgensen, do Greenland Institute of Natural Resources, "os narvais estiveram em partes dos fiordes onde muito poucas medições foram feitas antes. E lá, a 300 quilômetros da costa, encontramos vestígios de água atlântica". Essa constatação é inédita, reforçando a importância de utilizar esses animais para mapear águas inacessíveis.

Nas águas perto da costa leste da Groenlândia, uma corrente oceânica vinda do Atlântico carrega calor acumulado devido à poluição provocada por emissões de combustíveis fósseis, que está contribuindo para o derretimento da segunda maior planície de gelo do mundo. A infiltração dessa água mais quente em regiões antes protegidas por camadas espessas de gelo representa uma ameaça significativa à estabilidade do gelo marítimo, acelerando o processo de derretimento.

O uso dos narvais como sensores vivos no Oceano Ártico é apenas a terceira vez que essa abordagem inovadora é utilizada, tendo sido aplicada anteriormente nas baías de Baffin e Melville, também na Groenlândia. A captura e a colocação dos dispositivos nos animais foram feitas com a colaboração dos caçadores locais da vila de Ittoqqortoormiit, que possuem conhecimento tradicional e habilidade para localizar os cetáceos de maneira segura e eficiente.

Essa descoberta traz uma nova perspectiva para a compreensão da dinâmica oceânica em regiões remotas e ajuda a confirmar que a influência da atividade humana e da emissão de gases de efeito estufa está alterando até os ecossistemas mais protegidos do planeta. Ainda não há um posicionamento oficial das autoridades locais ou outras instituições sobre a extensão do impacto para as geleiras, mas os dados indicam a necessidade urgente de monitoramento constante e medidas de mitigação contra as mudanças climáticas.

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O que sabemos?

  • Narvais foram equipados com sensores para estudar águas sob geleiras da Groenlândia.
  • Detectaram vestígios de água atlântica, mais quente, a 300 km da costa leste da ilha.
  • Essa água quente está associada ao aquecimento causado por emissões de combustíveis fósseis.
  • Essa técnica foi usada poucas vezes, com colaborações locais importantes.

Fontes

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