Pesquisadores usam fezes humanas para tornar o concreto mais resistente
Inovação busca reduzir impacto ambiental do setor da construção civil
Uma equipe de cientistas criou um novo tipo de biocarvão a partir de fezes humanas, que pode fortalecer o concreto e ajudar na redução de gases de efeito estufa.
Pesquisadores de várias partes do mundo estão explorando alternativas inovadoras para diminuir o impacto ambiental do concreto, um dos materiais de construção mais utilizados globalmente. Segundo uma fonte especializada, a construção é responsável por cerca de 8% dos gases de efeito estufa do planeta, e grande parte desse impacto vem do cimento, componente fundamental do concreto, que responde por aproximadamente 88% do CO₂ emitido durante sua fabricação. Para tentar reduzir esses números, uma equipe liderada pelo engenheiro civil Raghuvesh Tiwari, da Universidade Manipal de Jaipur, na Índia, publicou recentemente resultados promissores relacionados ao uso de um material que surpreende pela origem: fezes humanas.
Segundo a mesma fonte, os cientistas coletaram resíduos de estações de tratamento de lodo fecal na cidade de Warangal, na Índia, um procedimento que envolve a secagem do material e sua posterior aquecimento a temperaturas entre 350°C e 450°C, em ambiente com baixa presença de oxigênio, até alcançar a carbonização. O produto obtido, chamado de biocarvão, foi triturado e peneirado até ganhar uma consistência fina, similar ao pó, que pode ser misturada ao concreto convencional sem comprometer sua resistência. O objetivo da pesquisa foi determinar até que ponto esse biocarvão poderia substituir parte do cimento na mistura, sem perder a qualidade do material final.
Para isso, os cientistas elaboraram quatro tipos de mistura: uma com cimento integral, outra com 5%, uma com 10% e uma com 15% do biocarvão substituindo o cimento. Durante o processo de cura, acompanhado por até 91 dias, as amostras foram submetidas a testes de resistência à compressão e flexão, bem como análises de absorção de água, porosidade e retração. Os resultados, divulgados na revista Scientific Reports, indicam que substituições moderadas podem melhorar as propriedades do concreto. A mistura com 10% de biocarvão, por exemplo, apresentou aumentos de 21% na resistência à compressão e de 42% na resistência à flexão após o período de cura, enquanto a com 5% conseguiu melhorias de 20% e 36%, respectivamente. Por outro lado, a composição com 15% de biocarvão apresentou resistência inferior às demais, sugerindo que há um limite para o uso do material sem prejudicar a durabilidade do concreto.
Especialistas apontam que esses resultados podem estar ligados às minúsculas porosidades do biocarvão, capazes de reter água durante a mistura. Assim, a umidade permanece dentro do material à medida que o concreto endurece, contribuindo para sua resistência e durabilidade. Ainda não há confirmação oficial de que essa técnica será adotada em larga escala ou substituição do cimento convencional, e o estudo ainda aguarda maior validação. De toda forma, a inovação levanta uma questão interessante: unir sustentabilidade e engenharia para transformar resíduos considerados perigosos em componentes valiosos para a construção civil, um setor que, até agora, é um dos maiores vilões do aquecimento global.
O que sabemos?
- Equipe de pesquisa liderada por Raghuvesh Tiwari
- Utilização de fezes humanas de estações de tratamento de lodo fecal na Índia
- Processo de carbonização a temperaturas entre 350°C e 450°C
- Misturas testadas substituindo 5%, 10% e 15% do cimento
- Resultados indicam melhorias na resistência do concreto com até 10% de biocarvão
Fontes
- Folha de S.Paulo imprensa





