Cogumelos alucinógenos no México unem tradição ancestral e interesse científico
Capítulo da história indígena e avanços na pesquisa sobre substâncias psicoativas
No México, a colheita de cogumelos psilocibinos na Sierra Mazateca remonta a séculos de uso tradicional. Recentemente, estudos científicos e a repressão legal entram em rota de colisão, levando a debates sobre o potencial terapêutico e a preservação cultural.
Na Sierra Mazateca, região do sul do México coberta por vegetação densa e montanhosa, o cultivo e uso de cogumelos alucinógenos fazem parte de uma tradição milenar. Segundo relatos de membros da comunidade indígena mazateca, esses fungos, que contêm psilocibina, são utilizados há gerações como medicina tradicional, para manter o equilíbrio com o ambiente e promover o autoconhecimento. Alejandrina, uma indígena que conhece com detalhes as plantações da sua região, relembra que, na infância, eles colhiam, cantando e recitando orações antes de comer os cogumelos, sempre em comunhão com a natureza.
A temporada de colheita, entre junho e agosto, coincide com o período chuvoso, que favorece o crescimento desses fungos. Um exemplar típico, conhecido como Derrumbe, representa uma dose pequena, embora para sentir efeitos perceptíveis uma pessoa precise ingerir pelo menos dez cogumelos. Ainda segundo relato da comunidade, esses produtos naturais são considerados remédios que ajudam na prevenção de doenças e fortalecem o vínculo espiritual e cultural do povo mazateca com sua terra, buscando harmonizar corpo e mente.
Foi na década de 1950 que a fama desses cogumelos ultrapassou as fronteiras mexicanas, impulsionada por uma reportagem da revista americana Life sobre Maria Sabina, uma das mais conhecidas xamãs da região. Celebridades como Bob Dylan, John Lennon e Jim Morrison buscaram a experiência ali, causando uma disseminação global do uso tradicional. No entanto, em 1970, o governo dos Estados Unidos proibiu oficialmente seu consumo, classificando os cogumelos contendo psilocibina como substâncias altamente restritas, sem potencial terapêutico, dificultando investigações científicas no próprio México. Segundo uma especialista que estuda o tema, a psiquiatra Rebeca Espinosa, esses cogumelos estão na Lista I, uma categoria de drogas consideradas perigosas, o que impede sua pesquisa oficial, embora as comunidades indígenas permaneçam autorizadas a consumi-los dentro de seus rituais tradicionais.
Apesar da proibição, há um corpo de estudos científicos que destaca os possíveis benefícios terapêuticos da psilocibina, especialmente no tratamento de transtornos de saúde mental como a depressão maior e ansiedade relacionada a doenças terminais. A pesquisa indica avanços no entendimento do potencial uso medicamentoso dessas substâncias, mesmo que sua circulação e uso fora do contexto indígena ainda sejam considerados ilegais na maior parte do mundo. A discussão sobre a legalização ou regulamentação da psilocibina se intensifica, sobretudo à luz dos benefícios possíveis que podem transformar o tratamento de certas doenças, além de preservar o conhecimento ancestral dessas comunidades indígenas.
O que sabemos?
- Os cogumelos alucinógenos na Sierra Mazateca fazem parte de uma tradição ancestral há milhares de anos.
- O uso tradicional inclui rituais de oração e comunhão com a natureza.
- A fama internacional veio na década de 1950 com a divulgação de Maria Sabina.
- A partir de 1970, nos EUA, a psilocibina foi criminalizada por governos.
- Pesquisas ainda apontam potencial terapêutico, mas a substância é classificada como ilegal na maior parte do mundo.
Fontes
- Folha de S.Paulo imprensa



