Imigração angolana para o Brasil revela padrões de precarização e rastros históricos
Estudo aponta que imigrantes enfrentam exploração e racismo estrutural em suas jornadas no país
Dados recentes indicam que mais de 34 mil angolanos ingressaram no Brasil entre 2000 e 2024, quase mantendo uma trajetória de exploração iniciada na época colonial. Pesquisas mostram que a maior parte trabalha em atividades informais e sofre com racismo, refletindo uma continuidade histórica de desigualdade.
Segundo informações de uma pesquisa recentemente defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, a imigração de angolanos para o Brasil, que já soma mais de 34 mil entradas no período de 2000 a 2024, mantém uma trajetória marcada pela precarização e pela exploração laboral, semelhante às formas de relação econômica que prevaleceram desde o período colonial. A especialista responsável pela tese, a geógrafa Priscilla Pachi, destaca que a maioria desses imigrantes consegue empregos em setores informais, como serviços de limpeza e construção, mesmo possuindo formação acadêmica em Angola.
A pesquisadora explica que, devido à baixa remuneração e às condições muitas vezes precárias dessas posições, esses trabalhadores precisam realizar múltiplas atividades para sobreviver. Ela afirma que “eles continuam entrando no mercado de trabalho em atividades precárias, mal remuneradas, o que contribui para uma inserção também precária dentro da sociedade brasileira no que tange à habitação, ao consumo e aos espaços que eles frequentam.” Além disso, a pesquisa revelou que esses imigrantes enfrentam racismo estrutural no Brasil, uma realidade que, segundo Priscilla, é uma descoberta recente para muitos deles: “eles falam que aqui realmente descobrem que são pretos”.
Segundo a pesquisa, esse racismo se soma à exploração econômica, criando uma combinação que permite afirmar que o país “continua se construindo com a destruição de Angola”, como pontua a pesquisadora. Durante entrevistas realizadas com 21 angolanos residentes em São Paulo e cinco empregadores, a maior parte dos imigrantes revelou que não recebe benefícios trabalhistas ou salários diferenciados em relação a outros estrangeiros. Uma das razões apontadas por Priscilla é que, por serem falantes de português, angolanos representam uma vantagem econômica para as empresas, pois não há custo com o ensino do idioma, mas, por outro lado, ela denuncia que esses imigrantes sequer são promovidos ou têm chance de crescimento na carreira.
Angola, assim como o Brasil, foi colônia de Portugal, mas passou por uma guerra civil que durou cerca de 40 anos, deixando o país com uma infraestrutura social bastante afetada. Segundo a geógrafa, hoje em Angola, a educação pública é oferecida apenas até os seis anos de idade, obrigando muitas famílias a arcar com altos custos para a educação de seus filhos. Muitas dessas dificuldades, que dificultam o acesso de angolanos aos direitos básicos, fazem com que a migração ao Brasil seja uma alternativa para quem busca ensino superior e condições mais acessíveis, inclusive com cursos que não existem na Angola devido às limitações do sistema de educação local.
Embora a pesquisa ainda não tenha sido confirmada oficialmente por outras fontes, ela evidencia o impacto de um ciclo de exploração que vem de uma história colonial marcada por desigualdades e guerras civis. A ausência de melhorias estruturais em Angola e a busca por condições de vida melhores, muitas vezes, colocam esses trabalhadores em uma condição de vulnerabilidade, reforçando uma saga que, segundo especialistas, ainda reproduz alguns padrões de opressão que tiveram início no período colonial e persistem até hoje.
O que sabemos?
- Mais de 34 mil angolanos ingressaram no Brasil entre 2000 e 2024 segundo o SisMigra.
- A maioria trabalha em atividades informais em setores como limpeza e construção.
- Pesquisas apontam que esses imigrantes enfrentam racismo estrutural no Brasil.
- Angolanos muitas vezes não recebem benefícios trabalhistas ao chegar ao Brasil.
Fontes
- Jornal da USP fonte oficial





